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As mulheres indígenas não marcham só por elas

9 de agosto de 2019

Diz a mitologia Munduruku que, nos tempos antigos, as mulheres habitavam o ekçá – a casa dos homens – e cabia aos homens trabalharem para elas. Esses papéis foram invertidos mais tarde; como qualquer sociedade, as comunidades indígenas são dinâmicas: assimilam costumes e se adaptam às circunstâncias. Hoje, um novo movimento feminista floresce no mundo. As mulheres indígenas não querem voltar a habitar o ekçá, mas igualdade. E, principalmente, garantir que seus direitos, assegurados pela Constituição, sejam respeitados. Por isso, assumiram um novo papel e agora lutam, lado a lado, com os homens.

As mulheres têm se destacado no movimento indígena atual. São nomes como a deputada federal Joênia Wapichana, Nara Baré, que está à frente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (Coiab) e Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), candidata à vice-Presidência da República na última eleição. E não por acaso, as mulheres também estão à frente da luta contra as mudanças climáticas: segundo um estudo da Universidade de Sidney, na Austrália, são elas que mais sofrem com os seus efeitos.

É neste contexto que nasce a Marcha das Mulheres Indígenas, que começa hoje, Dia Internacional dos povos Indígenas, e vai até o dia 13, em Brasília. No desfecho, elas levam às ruas da cidade as suas reivindicações e no dia 14, juntam-se à Marcha das Margaridas. O evento começou a ser gestados a partir de 2016, quando foi realizado a primeira plenária de mulheres indígenas no Acampamento Terra Livre (ATL). O tema escolhido para o encontro foi “Território: nosso corpo, nosso espírito”. Nada mais adequado, já que os indígenas se consideram parte indissociável da terra onde nasceram e vivem.

E é bom que todos fiquem atentos ao que elas têm a dizer: o recém-divulgado relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU indica que a consolidação do direito à terra dos povos indígenas como uma das principais respostas para a crise climática. Nada mais óbvio: se a Terra é o corpo e a alma do indígena, ninguém melhor do que ele para cuidar dela.