Hidrovias e o futuro da credibilidade brasileira

Hidrovias e o futuro da credibilidade brasileira

março 2026

Sem salvaguardas ambientais e consulta qualificada, a logística perde o que promete entregar: previsibilidade, acesso a mercados e estabilidade de longo prazo.

Por Paula Fernandes e Monica Prestes

Onde a água pulsa, pulsa a vida. Nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, o Brasil escuta o compasso do seu próprio coração. A discussão sobre hidrovias não cabe numa prancheta técnica: ela atravessa pessoas, culturas, energia e clima. Ao riscar novas rotas sobre os rios, redesenhamos futuros. E, nesse território, infraestrutura deixa de ser obra e passa a ser política pública — especialmente numa região em que a ciência já nos alerta para a proximidade de pontos de inflexão da floresta, limiares a partir dos quais o equilíbrio ecológico pode se perder de forma rápida e irreversível, com consequências profundas para o país e para o mundo.

A promessa de acelerar cargas encurta distâncias, mas também mexe nas estruturas do território: comprime ecossistemas, desloca economias locais e afeta o pulso hídrico que mantém a floresta em equilíbrio. Essa pressa se soma a um novo desenho do licenciamento ambiental: o PL 2.159/2021, aprovado entre polêmicas e vetos presidenciais, virou a Lei nº 15.190/2025 e afrouxou a guarda para unidades de conservação e direitos de comunidades tradicionais.

A ciência também diz que, se a Moratória da Soja ceder, até 10 milhões de hectares desmatados desde 2008 podem virar lavoura, dissolvendo o ganho climático atribuído ao modal hidroviário e forçando a floresta rumo a limites perigosos. A conta chega na forma de chuva rareando, agricultura instável e maior vulnerabilidade hídrica — um prejuízo silencioso que dura décadas.

E tudo isso acontece quando o planeta entra na estação da falência hídrica: lagos minguam, aquíferos baixam e zonas úmidas desaparecem. Decidir dragagens e derrocagens sem dados abertos, sem avaliação cumulativa por bacia e antes de concluir um Plano Nacional de Logística (PNL 2050) que organize prioridades é entregar o leme à correnteza justamente quando precisamos de âncora e carta náutica.

Há, também, o que não cabe em tabelas. Para os Munduruku, Arapiun, Tupinambá, Kayapó, Panará, Borari, Kumaruara, Tupaiu, Tapuia, Maytapu, Jaraky e tantos outros povos, o rio não é corredor: é casa, caminho, alimento e memória. Incorporar esse saber é reconhecer uma verdade econômica e científica: esses povos prestam serviços ecossistêmicos — protegem a água, regulam o clima, conservam a biodiversidade e mantêm cadeias de valor possíveis. Nosso maior diferencial se chama sociobiodiversidade.

Nesse mesmo compasso, a Consulta Livre, Prévia e Informada é dever e, sobretudo, inteligência institucional. A consulta bem-feita previne contenciosos, reduz incertezas e oferece algo raro em tempos turbulentos: previsibilidade.

Intervir na Amazônia, nosso grande legado dos povos ancestrais, começa por planejar: dados hidrológicos e climáticos à luz do dia, avaliação por bacia para enxergar o mosaico inteiro, decisões alinhadas a um Plano Nacional de Logística que exista como guia. Implica, ainda, aplicar o licenciamento com rigor e densidade técnica. A agilidade do novo marco só será virtude se vier acompanhada de crivo qualificado — especialmente em empreendimentos de alto impacto. A Amazônia não tolera superfícialidade; exige profundidade.

No fim, não estamos diante de progresso versus atraso, mas de responsabilidade versus improviso. A pergunta que ecoa pelo Tapajós, pelo Madeira e pelo Tocantins — e que retorna à mesa de decisões em Brasília, nos estados e nas empresas — é simples e definitiva: em nome de quem, e de quê, vamos decidir? Porque o que está em jogo não é só como chegamos mais rápido, mas quem chega junto e o que permanece de pé — e se, no futuro, ainda teremos floresta suficiente para continuar existindo.

*Paula Fernandes é diretora da Uma Gota No Oceano e Monica Prestes é jornalista correspondente na Amazônia

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