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Entrando numa fria?

3 de agosto de 2021

Deu no “The New York Times”, em julho de 1850: “Existe um excêntrico na cidade de Apalachicola, Flórida, que pensa poder fazer gelo tão bem quanto Deus Todo-Poderoso”. O referido excêntrico se chamava John Gorrie. A desconfiança do tradicional jornal americano era justificável na época, pois, crenças à parte, sua engenhoca era movida a vapor. Como assim? Usar o calor para gerar frio? A invenção de Gorrie foi aperfeiçoada, mas o seu princípio de funcionamento continua o mesmo – quem nunca botou roupa pra secar atrás da geladeira? Então é normal que o cidadão comum, que ainda está batendo os queixos de frio no sul e sudeste do país, se pergunte: mas que diabos de aquecimento global é esse? A descoberta de que o efeito estufa também poderia esfriar o tempo é razoavelmente recente. E a Ciência é como a Ofélia do Fernandinho – essa saiu do fundo do baú: só abre a boca quando tem certeza. Mas ao contrário dela, costuma ter razão.

Daí o termo ter sido trocado por mudanças climáticas, que é bem mais amplo e ajuda a evitar equívocos. Pois, diferentemente do Chacrinha – eita, daqui a pouco chamam a gente de cringe –, os cientistas vieram para explicar, não para confundir. Nos tempos de Lúcio Mauro, Sônia Mamede e Abelardo Barbosa, o Velho Guerreiro, nevar no Brasil era sonho de criança. Hoje, este fenômeno pode se tornar cada vez mais comum. O mar está esquentando e, com isso, acelerando a velocidade corrente de ar circular que paira sobre a Antártida, como um catavento sobre uma chama. E aí, já viu: ela espalha o frio para mais longe, como faz o ventilador com a sujeira e com as verdades inconvenientes.

Para quem não se lembra, até essa massa de ar polar chegar ao país o inverno estava, digamos, bem ameno – em Porto Alegre e São Paulo os termômetros beiravam os 30ºC. “Em função do aquecimento, os sistemas de circulação atmosférica são alterados. Massas de ar frias podem gerar extremos de temperatura mais baixas ou massas de ar muito mais úmidas podem gerar inundações, por exemplo”, explica Tércio Ambrizzi, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.

A friaca no Brasil, o calorão tropical do Canadá e as chuvas torrenciais na Alemanha e na China têm a mesmíssima origem, conforme esclarece Francisco de Assis, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet): “Isso está associado à alta variabilidade climática e aquecimento global, que causam esses extremos. Da mesma forma que o frio extremo aqui, vemos o forte calor no Hemisfério Norte”. Também segundo ele, a massa de ar frio que desembarcou por essas bandas será a terceira neste 2021. Em geral, só chegam uma ou duas com potência semelhante por ano.

A temperatura do planeta aumentou aproximadamente 1,2ºC desde o século XIX, com o início da Revolução Industrial, quando a gente acreditava que podia tudo. E deve continuar subindo, caso não reduzamos drasticamente as emissões de CO₂. É preciso deixar claro que, apesar do frio incomum que atingiu o Brasil, é no calor excessivo que mora o grande perigo. Ainda nesta década, algumas regiões do planeta devem se tornar inabitáveis. Além disso, causará prejuízos na produção de alimentos, o que deve resultar em fome numa escala jamais vista.

Podemos ter outro inverno fora do comum no Brasil no próximo ano, mas a tendência é que a média da temperatura anual aumente. E uma das consequências mais danosas desse fenômeno será a profusão de ventos climáticos extremos que vamos encarar daqui para frente no mundo inteiro: longas estiagens, inundações, tempestades, ondas de calor, furacões etc. “A circulação geral da atmosfera responde de forma extrema ao aumento de temperatura, causando eventos extremos também”, diz Tércio Ambrizzi.

Mas o assunto do momento é o frio, né? A garotada do sul se esbaldou com a neve, mas as temperaturas – que chegaram a baixar do zero em 75 cidades gaúchas – causaram prejuízos no campo. Isso depois de a região ser castigada por uma seca inclemente. A coisa só não ficou mais feia porque os agricultores locais combateram frio com frio: molharam as lavouras, para congelá-las. Assim como o calor pode esfriar, frio demais queima; congeladas, elas ficam mais protegidas. É o princípio dos iglus, que são feitos de gelo: água congelada atinge 0°C, temperatura superior à do ambiente – e, acreditem, faz uma diferença danada enfrentar 0°C ou -14°C.

Chegou a hora de usar tudo o que aprendemos desde a Revolução Industrial para sair dessa fria.

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