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Efeito dominó

10 de agosto de 2021

Um personagem recorrente no cinema-catástrofe é o cético que, por ignorância ou má-fé, recusa-se a se render às evidências. A ele, geralmente o roteirista dedica um desfecho cruel e exemplar. Não é diferente na vida real. Durante o incêndio Dixie, que reduziu a cinzas o povoado histórico de Greenville, na Califórnia, moradores se recusaram a deixar suas casas, chegando a ameaçar bombeiros com armas de fogo. O mais grave, porém, é que desavisados – ou, simplesmente, irresponsáveis – desse tipo costumam arrastar inocentes atrás de si. O último relatório do IPCC da ONU mostra, inequivocamente, que o mundo se encontra à beira do abismo. Guiado por uma figura que parece ter saído de má ficção, o Brasil se encontra um passo à frente. E o pior, está arrastando nossos vizinhos para o precipício também: o desmatamento na Amazônia está afetando diretamente a Argentina.

O “ClimateChange 2021: The Physical Science Basis”, que pautará as discussões da próxima conferência do clima das Nações Unidas, a COP-26, a ser realizada em novembro em Glasgow, na Escócia, é categórico: “É um fato estabelecido que a influência humana aqueceu o sistema climático e que mudanças climáticas generalizadas e rápidas ocorreram”. Se já não dava para fingir que a gente não tinha nada a ver com isso, agora se fazer de desentendido é passar vergonha. “Não houve nem um único país, durante os debates sobre aprovação do relatório, que tenha levantado dúvidas sobre essa questão. É um consenso, passamos dessa etapa. Agora é o que fazer, como fazer, quem paga a conta”, explica Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e membro do IPCC. O relatório foi compilado por 234 cientistas de 66 países, baseado em mais de 14 mil apontamentos.

As informações contidas no documento de 42 páginas são estarrecedoras – desculpem o mau jeito, mas não há palavra mais adequada. Os negacionistas mais delirantes já começam a recolher os cartazes de “O fim do mundo não está próximo”.

A temperatura média da Terra já subiu 1,1ºC desde 1850. E deve alcançar 1,5ºC acima do nível pré-industrial já na próxima década, uma antes do que era previsto. Inundações, secas, furacões e ondas de frio e de calor vão se tornar cada vez mais frequentes. Algumas consequências dessa catástrofe já são consideradas irreversíveis, como a subida do nível do oceano, que transformará cidades como Rio de Janeiro, Londres e Nova York em Atlântidas – o mar deve subir 2 metros até 2100 e mais 5 metros 50 anos depois. Outras mudanças chegarão bem mais cedo: para cada grau Celsius a mais, os temporais se tornarão 7% mais intensos e 30% mais frequentes; as ondas de calor, que já têm 2,8 vezes de chances a mais de ocorrerem e já são 1 °C mais fortes do que antes da Revolução Industrial, poderão acontecer 9,4 vezes mais e serão 5 °C mais quentes.

A política para o setor aqui só tende a piorar este cenário: “O negacionismo ambiental desse governo é muito parecido com o negacionismo na pandemia, que produziu quase 600 mil mortes. Esse negacionismo na saúde a gente está vendo o que gera. Frente ao meio ambiente, vemos escassez hídrica, aumento das emissões, produção de alimentos ficando mais cara”, diz Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

O desastre causado pelo governo brasileiro mais cedo ou mais tarde vai se refletir em todo o planeta – com o desmatamento fora de controle, a Floresta Amazônica já emite mais CO₂ do que é capaz de absorver. Isso já está acontecendo num país vizinho, que está passando por uma crise hídrica sem precedentes. “Na Argentina, por exemplo, cerca de 70% da agricultura depende da água que vem dos rios voadores da Amazônia. A Argentina está sofrendo mais que o próprio Brasil, e a crise pode se mostrar mais severa lá antes mesmo do que aqui”, conta Philip M. Fearnside, doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus. E, se depender da sensatez de Bolsonaro, a grama do vizinho não será mesmo mais verdinha.

Recentemente, o presidente brasileiro preferiu não receber Alok Sharma, deputado conservador designado pelo governo britânico para presidir a COP-26. Apesar da descortesia, Sharma, que tem status de ministro de Estado, declarou-se encantado com técnicas desenvolvidas no país de agropecuária sustentável.

Outro dia também, Bolsonaro disse que grande parte dos indígenas “não sabe nem o que é dinheiro”. Na histórica carta que mandou para o presidente americano Franklin Pierce, em 1855, em resposta à oferta de compra das terras de seu povo, os Duwamish, o legendário Cacique Seattle questionava: “Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal ideia é-nos estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes então comprá-los de nós?”. Os indígenas conhecem o real valor das coisas. E não deixa de ser irônico que o governo e seus aliados ainda pareçam viver nos tempos das pinturas rupestres, enquanto eles se aventuram no mercado da arte digital das NFTs. Sabedoria é coisa que vem de tempos imemoriais e se adapta com o passar dos anos. Os povos indígenas do Brasil são os protagonistas de nossa História; outros, meros coadjuvantes que, como na ficção, servem de mote para lição de moral.

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