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A arte de furar bolhas

28 de setembro de 2021

Por Helena Aragão

Reza a cartilha do mundo ocidental que o trabalho dignifica o homem. Mas muitas vezes o que se vê é muito sacrifício, passando longe da dignidade – “no pain, no gain”, diria o ditado em inglês. Já os indígenas encaram a rotina de labuta numa lógica diferente em muitos aspectos. Ali, os cantos acompanham as andanças, os utensílios levam desenhos e cores vibrantes, as danças são parte da identidade – e da resistência, vide sua presença constante na mobilização com representantes de mais de 170 etnias em Brasília no mês passado. O que chamamos de arte, em diferentes esferas, faz parte do dia a dia, não só nas horas de lazer ou descanso. Ailton Krenak resumiu esse espírito numa reflexão que fez no programa “Roda Viva”, em abril. “A vida, por ser esse dom tão indescritível, ela não pode ser recebida de outra maneira se não com contentamento, alegria e uma resposta criativa para o sentido de uma dança cósmica. Se você fosse chamado para uma dança cósmica, você ficaria cabisbaixo?”.

Em 1986, quando escreveu sobre “Arte Índia”, Darcy Ribeiro marcou como diferencial a dimensão coletiva dessa produção. “A arte ali é mais comunal que individual, em cujo seio o artista nem sequer reivindica para suas obras a condição de criações únicas e pessoais.” Ribeiro também ponderou que, se o simples fato de escrever não faz de ninguém um escritor, a mera capacidade de criar mais ou menos bem qualquer artefato não faz de nenhum indígena, só por isso, um artista. “Faz é toda a comunidade participar da alegria da criatividade e do gozo da apreciação estética.”

Muita coisa mudou nesses 35 anos, é claro. Mas, apesar de tanta pressão em cima das tradições, há um tanto desse espírito que se mantém. Como quando Daiara Tukano diz ao jornal britânico “The Guardian” que a arte que faz pertence a seus ancestrais (“ancestrais que estão aqui comigo”). Ou quando Jaider Esbell, macuxi de Roraima, reflete: “Uma palavra para traduzir a arte indígena contemporânea? A coletividade. Mas ela precisa ainda da assinatura do artista para poder chegar no sistemão europeu, que trabalha ainda em cima da centralidade de uma só pessoa”.

Daiara e Jaider são representantes de um momento de visibilidade ímpar da arte indígena em museus e galerias do Brasil. Ambos concorrem em categorias do Prêmio Pipa (sendo que ele venceu a edição online em 2016) e são destaques da Bienal de Arte de São Paulo, com Sueli Maxakali, Uýra, Gustavo Caboco e mais quatro indígenas estrangeiros. Em programação paralela, o evento abriga no MAM-SP a coletiva Moquém-Surarî, com curadoria de Jaider. A alguns quilômetros dali, no Masp – museu que conta com uma curadora indígena, Sandra Benites –, a multiartista Zahy Guajajara apresenta trabalhos de videoarte. Isso se nos limitarmos aos exemplos em São Paulo, há muitos outros Brasil afora.

É uma oportunidade para, além de conhecer essas obras, refletirmos sobre o papel da arte e aprendermos sobre sua dimensão coletiva. Um exemplo? Jaider faz uso da tal assinatura imposta pelo “sistemão europeu” para dar espaço a outros 33 artistas indígenas, sendo 11 de Roraima, na mostra Moquém-Surarî, a que está no MAM. Ele e mais sete de seus conterrâneos apresentam as 17 obras da coleção “Vacas nas terras de Makunaimî: de malditas a desejadas”, carro-chefe da exposição.

Cores da pecuária indígena

Esta coleção, que já foi exposta nos Estados Unidos, reúne obras que têm em comum a referência à pecuária indígena. Que, acredite, é outro exemplo de trabalho coletivo completamente diferente dos moldes que vemos por aí. Há 40 anos, há na Terra Indígena Raposa Serra do Sol uma criação de gado feita de forma comunitária e sem desmatamento, porque seu território é de savana – o lavrado, como se conhece localmente. Ameaçados por fazendeiros nos anos 1970, os indígenas passaram a criar seu próprio gado para garantir terra e alimentação. Ao reproduzirem, os bois e vacas adultos eram doados a outra comunidade, e o grupo original ficava com os bezerros. Hoje, só na região da Raposa Serra do Sol são 40 mil cabeças de gado. “O gado é para os macuxi o que o cavalo foi para os povos nativos das pradarias norte-americanas: o elemento invasor que deu certo”, explica a antropóloga Leda Leitão Martins.

Deu certo, mas a partir de um processo que nem sempre foi simples (vide o nome “de malditas a desejadas”). E é isso que os indígenas, todos eles com alguma relação com o gado, retratam em suas obras – que, no dia 11 de outubro, poderão ser vistas uma visita guiada seguida de debate com personagens importantes desta saga da pecuária. “Estamos aqui para mostrar que o macuxi difere de todos os outros criadores de gado no Brasil. Isso acontece há 40 anos e é pouco falado. A arte é fundamental para essa ação contracolonial”, diz Jaider.

E é fundamental para furar bolhas. Enquanto os indígenas pecuaristas provam seu poder de adaptação ao incorporar uma prática externa de maneira sustentável e comunitária, os artistas usam armas em formas de cores e texturas para mostrar a resistência de seus povos. A arte tem potencial de sensibilizar, gerar empatia, explorar mundos distintos. E provocar – não à toa, os artistas circularam com o cartaz “A Bienal dos Índios” pela megaexposição, e usam este nome também numa programação paralela de debates, dando a dimensão crítica de sua participação. E engrossando o importante debate sobre representatividade no Brasil e no mundo.

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