O freio da emergência climática existe

O freio da emergência climática existe

outubro 2026

Dez anos após a Emenda de Kigali, o sucesso do Protocolo de Montreal mostra que limitar a intensidade e a duração do overshoot climático exigirá transformar compromissos voluntários sobre metano em obrigações vinculantes

Artigo de Opinião

Por Durwood Zaelke – fundador e presidente do Institute for Governance & Sustainable Development (IGSD) e um dos principais defensores de estratégias para proteger rapidamente o clima por meio da redução de poluentes climáticos de vida curta, incluindo o metano.

A humanidade já mostrou que é capaz de deter uma ameaça à atmosfera e ao clima global.
Em pouco mais de três décadas, o Protocolo de Montreal eliminou 99% da produção e do consumo de quase 100 substâncias que destroem a camada de ozônio, hoje em recuperação.

Tive o privilégio de acompanhar de perto a construção dessa resposta. Montreal funcionou ao combinar metas vinculantes, cronogramas claros, monitoramento, financiamento e assistência técnica aos países em desenvolvimento.

Há 10 anos, a Emenda de Kigali incluiu nessa arquitetura a redução gradual dos hidrofluorcarbonetos (HFCs), gases usados sobretudo em refrigeração e ar-condicionado, que, peso por peso, podem aquecer o planeta até 2 mil vezes mais que o CO₂. Estima-se que Montreal e suas emendas evitem até 2,5°C de aquecimento até o fim do século, incluindo até 0,5°C atribuídos a Kigali. É dessa arquitetura que a mitigação do metano precisa na era do overshoot.

O relatório Limiting Overshoot, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), mostra que a ultrapassagem de 1,5°C de aquecimento é inevitável. No cenário mais otimista, o pico seria de cerca de 1,8°C. A questão já não é se cruzaremos esse limite. O desafio é saber quanto ficaremos acima dele, por quanto tempo e se conseguiremos retornar rapidamente a níveis seguros.

Cada décimo de grau significa mais calor extremo, mais perdas agrícolas, mais doenças, mais deslocamentos humanos e maiores danos econômicos. Limitar a intensidade e a duração do overshoot será um desafio central da governança climática nas próximas décadas. E o metano está no centro dele.
O metano responde por cerca de um terço do aumento da temperatura global já registrado. Em 20 anos, retém cerca de 80 vezes mais calor que o CO₂, mas fica apenas 12 anos na atmosfera, contra séculos do CO₂. Essa combinação faz do metano a alavanca mais rápida para desacelerar o aquecimento. Cortar 45% das emissões globais poderia evitar uma elevação de cerca de 0,3°C até 2050.

Mitigar o metano não substitui a descarbonização. Reduzir o CO₂ é a maratona que estabilizará o clima no longo prazo. Cortar metano é a corrida de curta distância capaz de desacelerar o aquecimento enquanto concluímos essa transição, minimizando o risco de ultrapassar pontos de não retorno e de um overshoot mais intenso e prolongado.

Lançado em 2021, o Compromisso Global do Metano ajudou a tirar o metano das sombras. Mais de 150 países, incluindo o Brasil, apoiam a meta de cortar 30% das emissões globais até 2030.

Mas a experiência climática expôs os limites dos compromissos voluntários. O acordo não distribui responsabilidades nem prevê mecanismos de cumprimento. Os planos nacionais atuais cortariam apenas cerca de 8% das emissões globais de metano até 2030; soluções disponíveis poderiam cortar cerca de 32%, mais de 80% dessas reduções a baixo custo. Essa é a distância entre o tecnicamente possível e o que os compromissos voluntários estão entregando.
Enfrentar o maior desafio climático da história exige transformar esse compromisso global em acordo vinculante, começando pelos combustíveis fósseis. Significa adotar metas obrigatórias, cronogramas, sistemas de monitoramento, mecanismos de financiamento e responsabilidades diferenciadas — pilares de Montreal e Kigali — que estão entre os acordos multilaterais mais bem-sucedidos.

Não exige adesão simultânea de todos os países. Uma coalizão inicial de produtores de gás natural, compradores e países vulneráveis poderia estabelecer padrões, criar incentivos de mercado e ampliar a participação. Discussões entre Brasil, China e Índia, três dos quatro maiores emissores de metano, além de Reino Unido e França, apontam um caminho.

Petróleo e gás, onde as reduções são baratas e lucrativas, são o ponto de partida. Resíduos e agropecuária podem avançar com marcos regulatórios e financiamento adaptados às diferentes realidades. Os três setores respondem por mais de 95% das emissões globais de metano.
A Semana do Clima de Nova York pode dar impulso político à proposta. A COP31 poderá ampliá-la e dar mandato claro aos negociadores para avançar nas discussões.

Montreal e Kigali mostraram que regras comuns, financiamento adequado e responsabilidades compartilhadas podem mudar a trajetória de uma crise global. O desafio do metano é diferente, mas a lógica é a mesma.

Temos diante de nós uma das raras chances de reduzir o aquecimento de forma rápida e mensurável. O freio de emergência climática está ao nosso alcance. O que falta não é tecnologia nem conhecimento. É criar a obrigação política de acioná-lo.

 

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