A era do overshooting

A era do overshooting

setembro 2026

Na era do overshooting, o atraso ficou caro demais 

Os números da ONU mostram que adiar a ação climática custa mais do que agir. 

Editorial

Menos de uma semana depois de reconhecer que a ultrapassagem de 1,5°C de aquecimento global se tornou inevitável, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) divulgou, com a Coalizão Clima e Ar Limpo (CCAC), uma das avaliações mais abrangentes sobre os benefícios econômicos, climáticos e sanitários da ação climática. O estudo desmonta um dos argumentos mais persistentes contra essa agenda: o de que agir custa caro. Os números mostram o contrário. Caro é continuar esperando.  

A principal contribuição do estudo Ativos Ocultos: os argumentos econômicos e de saúde a favor de ações climáticas e de ar limpo não está em revelar novas tecnologias. Está em demonstrar, com números difíceis de ignorar, que já sabemos como reduzir parte significativa dos impactos da crise climática. O relatório analisou 25 medidas disponíveis em setores como energia, indústria, agricultura, resíduos e transportes. A conclusão é que cada dólar investido pode gerar até US$ 15 em benefícios econômicos globais, com retornos superiores aos custos em menos de uma década.  

É difícil pensar em outra política pública capaz de apresentar uma relação custo-benefício semelhante. Os retornos projetados equivalem a 2,8% do PIB mundial em 2035, 4,5% em 2050 e 11,4% em 2100. A implementação custa cerca de 0,7% do PIB global por ano, menos de um terço dos subsídios explícitos destinados aos combustíveis fósseis. Uma adoção mais rápida dessas medidas poderia evitar perdas equivalentes a US$ 10 trilhões até 2040. Em outras palavras, o mundo continua investindo mais para agravar o problema do que para solucioná-lo.  

Os benefícios vão muito além do clima. Somente em 2025, a poluição do ar externo esteve associada a 6,4 milhões de mortes prematuras, enquanto a doméstica contribuiu para outras 2 milhões, incluindo as de aproximadamente 300 mil crianças. Até 2050, as medidas analisadas poderiam evitar 144 milhões de mortes prematuras, 62 milhões de casos de asma infantil, 87 milhões de infartos, 56 milhões de casos de diabetes, 45 milhões de AVCs e 36 milhões de casos de demência. Poucas vezes uma agenda ambiental esteve tão diretamente conectada à proteção da vida humana. 

O relatório ganha relevância ainda maior porque chega na era do overshooting. O próprio PNUMA havia concluído que a ultrapassagem de 1,5°C se tornou inevitável. Mesmo no cenário mais otimista, a temperatura global deverá atingir um pico próximo de 1,8°C antes de iniciar uma trajetória de queda. A questão já não é evitar completamente esse limite, mas impedir que sua ultrapassagem seja mais intensa, longa e destrutiva. Quanto mais alto o pico e maior o tempo acima de 1,5°C, maiores os danos sobre ecossistemas, economias e sociedades. Cada décimo de grau importa. Cada ano importa. Cada decisão importa. 

É nesse contexto que o metano emerge como uma das ferramentas mais estratégicas disponíveis. Responsável por cerca de um terço do aquecimento já observado, ele aquece mais de 80 vezes que o dióxido de carbono em um horizonte de vinte anos, mas permanece aproximadamente doze anos na atmosfera. Reduzi-lo produz, portanto, resultados mais rápidos. O conjunto das 25 medidas avaliadas poderia evitar cerca de 0,34°C de aquecimento até 2050, reduzir em aproximadamente 50% as emissões globais de CO₂, cortar cerca de 60% das emissões de metano e diminuir em quase 70% os principais poluentes atmosféricos. Na era do overshooting, isso não é um detalhe técnico. É uma oportunidade estratégica. 

Talvez o aspecto mais desconfortável do relatório esteja em sua conclusão sobre os obstáculos existentes. As principais barreiras não são tecnológicas nem econômicas. Falhas de coordenação institucional, limitações de governança, dificuldades de financiamento e baixa capacidade de implementação atrasam em aproximadamente oito anos a adoção das medidas já conhecidas. Cada ano desperdiçado representa mais de US$ 1,5 trilhão em benefícios perdidos. Não faltam evidências, tecnologias ou justificativas econômicas. Faltam velocidade política e capacidade institucional para transformar conhecimento em ação.  

Para o Brasil, essa não pode ser uma agenda secundária. Em um país continental, grande produtor de alimentos e energia, nossas escolhas sobre agropecuária, resíduos, combustíveis e uso do solo repercutem muito além das fronteiras nacionais. Na América Latina e no Caribe, cada dólar investido em ações integradas pelo clima e pelo ar limpo pode gerar aproximadamente US$ 9 em benefícios econômicos. Transformar esse potencial em política pública, investimento e escala é uma oportunidade de proteger vidas, fortalecer a economia e afirmar uma liderança brasileira compatível com a importância do país para o equilíbrio climático global.  

A principal novidade do relatório talvez seja retirar definitivamente a ação climática de um campo exclusivamente ambiental. Clima, qualidade do ar, saúde e economia não podem mais ser tratados como agendas separadas. O chamado “ativo oculto” não é uma tecnologia recém-descoberta, mas o valor humano, econômico e climático que continuamos desperdiçando ao adiar soluções que já conhecemos 

Não entramos na era do overshooting sem alternativas. Sabemos onde reduzir emissões, como melhorar a qualidade do ar e proteger vidas. Conhecemos os custos e os benefícios das soluções disponíveis. A questão já não é técnica nem científica. É política.  

Na era do overshooting, a pergunta deixou de ser se podemos agir. A pergunta é quanto ainda estamos dispostos a pagar pelo atraso. 

 

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