Quando o futuro vira presente
Editorial
O país que irá às urnas nos próximos meses não é o mesmo das eleições anteriores. O calor extremo afeta a saúde, o trabalho e a produtividade. Secas pressionam cidades, lavouras e sistemas de energia. Chuvas intensas, enchentes e incêndios tornam-se cada vez mais frequentes e custosos. Em grande parte do território nacional, os impactos da mudança do clima já fazem parte da realidade cotidiana.
Ao mesmo tempo, o Brasil ocupa hoje a quarta posição entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta, segundo dados divulgados pelo SEEG/Observatório do Clima com base no Climate Watch. O dado revela um duplo desafio: lidar com os impactos que já atingem a população e acelerar a transição para um modelo de desenvolvimento capaz de reduzir emissões e enfrentar um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes.
Durante muito tempo, as mudanças do clima foram tratadas como uma ameaça distante. Essa distância desapareceu. O clima passou a influenciar diretamente a forma como produzimos alimentos, planejamos cidades, organizamos sistemas de saúde, garantimos segurança hídrica e estruturamos a economia.
O clima deixou de ser uma variável externa ao desenvolvimento. Hoje, ajuda a determinar seus limites e possibilidades.
A nova infraestrutura do desenvolvimento
Adaptar o país significa reduzir riscos, proteger vidas e criar condições para que cidades, serviços públicos e atividades produtivas continuem funcionando em um cenário de temperaturas mais elevadas e eventos extremos mais frequentes. Significa preparar hospitais para ondas de calor, fortalecer sistemas de alerta e defesa civil, proteger encostas, rodovias e zonas costeiras, garantir segurança hídrica e construir uma agricultura mais resiliente.
Mas a infraestrutura da adaptação não será feita apenas de concreto, aço e tecnologia. Ela dependerá também da proteção dos sistemas naturais que sustentam a economia e a qualidade de vida da população.
Rios, nascentes, aquíferos, manguezais, áreas úmidas e bacias hidrográficas garantem água para cidades, agricultura e energia. Da mesma forma, Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa não são apenas patrimônios naturais. São sistemas vivos que regulam chuvas, protegem solos, armazenam carbono e ajudam a sustentar a produção de alimentos, a geração de energia e o desenvolvimento econômico. Fragilizá-los significa aumentar a vulnerabilidade do país justamente quando mais precisamos de resiliência.
Há caminhos para seguir adiante
O Brasil já começou a construir respostas para esse desafio. O Plano Clima 2024-2035 reúne mais de 800 ações voltadas à adaptação e à redução dos riscos climáticos em áreas como saúde, recursos hídricos, cidades, energia, agricultura, gestão de riscos, povos indígenas e comunidades tradicionais. O plano reflete uma mudança importante: adaptar o país deixou de ser uma tarefa setorial e passou a ser uma estratégia nacional. Também reconhece que povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais não apenas enfrentam os impactos da mudança do clima, mas acumulam conhecimentos valiosos para um planejamento mais conectado aos ritmos, limites e respostas que a própria natureza oferece.
Entre as oportunidades mais imediatas estão soluções capazes de combinar benefícios ambientais, econômicos e sociais. É o caso da gestão de resíduos. Lixões e aterros inadequados contaminam solos e águas e emitem metano, um dos gases de efeito estufa mais potentes da atualidade. Encerrar lixões, ampliar a coleta seletiva, investir em compostagem e aproveitar o biogás para produzir biometano reduz emissões, gera energia e movimenta economias locais. Algumas cidades brasileiras já demonstram que proteção ambiental, inovação e desenvolvimento podem caminhar juntos.
A pergunta que esta eleição precisa responder
É justamente por isso que o período eleitoral merece atenção especial.
A partir de agora ouviremos propostas para saúde, educação, emprego, habitação, infraestrutura, agricultura, energia e desenvolvimento regional. A questão é simples: elas fazem sentido diante do Brasil que temos pela frente?
Uma política habitacional considera o aumento das temperaturas e os riscos de enchentes? Uma política agrícola protege a água e o solo? Um programa de saúde prepara a rede pública para eventos climáticos mais frequentes? Um projeto de infraestrutura incorpora os riscos das próximas décadas? Há compromisso com a proteção dos ecossistemas que sustentam a economia, a segurança hídrica e a qualidade de vida da população?
Se o século XX exigiu a construção da infraestrutura do desenvolvimento, o século XXI exigirá a construção da infraestrutura da adaptação.
Por isso, vale observar quem compreendeu a dimensão dessa tarefa. Quem pretende proteger nossas águas, preparar nossas cidades, fortalecer a produção de alimentos, reduzir riscos climáticos e garantir os direitos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, cujos territórios desempenham papel decisivo para a conservação da biodiversidade, a estabilidade climática e a segurança hídrica do Brasil.
O desafio desta eleição não é apenas escolher quem governará os próximos anos. É escolher quem está preparado para governar um país que já enfrenta uma nova realidade climática.
Ignorar essa transformação não fará com que ela desapareça. Apenas tornará seus custos maiores, suas desigualdades mais profundas e seus impactos mais difíceis de enfrentar.
O Brasil que vai às urnas já mudou.
A questão agora é se mudaremos junto com ele.
As escolhas feitas nos próximos anos definirão nossa capacidade de proteger vidas, garantir segurança hídrica, fortalecer a produção de alimentos e reduzir riscos crescentes.
O clima já mudou. Resta saber se nossas escolhas estarão à altura dessa nova realidade.