Biometano e a economia circular

Biometano e a economia circular

agosto 2026

Biometano: energia limpa ou armadilha para a economia circular?
O desafio do biometano não é a escala. É a direção.

Com enorme potencial energético, o biometano só cumprirá sua promessa se vier acompanhado de um modelo circular que estenda os benefícios para além dos fatores energéticos e climáticos.

Por Alessandro Sanches Pereira e Victor Hugo Argentino

Segundo a Associação Brasileira de Biogás (ABiogás), os resíduos que o Brasil já produz diariamente, do esgoto das cidades aos dejetos da pecuária e às sobras da agroindústria, poderiam gerar uma quantidade de gás renovável equivalente a cerca de 70% do diesel consumido no país. No entanto, o Brasil aproveita menos de 6% do seu potencial de produção dessa fonte de energia, segundo o Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás).

Mas a expansão do biometano traz uma questão central para a transição energética brasileira: produzir mais energia não significa, automaticamente, gerar desenvolvimento nem maximizar seus benefícios climáticos e sociais.

O biogás surge da decomposição controlada de matéria orgânica. Após passar por um processo de purificação, transforma-se em biometano, um combustível com características semelhantes às do gás natural, capaz de utilizar a mesma infraestrutura e abastecer os mesmos equipamentos. Seu potencial é especialmente relevante em setores nos quais a eletrificação ainda enfrenta limitações econômicas ou tecnológicas, como o transporte pesado e alguns processos industriais.

Há também um ganho climático decisivo. Quando resíduos orgânicos se decompõem de forma descontrolada, liberam metano, um gás que aquece a atmosfera cerca de 80 vezes mais que o dióxido de carbono nos primeiros 20 anos após sua emissão. Capturar esse metano e transformá-lo em energia significa reduzir emissões, mas seu verdadeiro potencial está em combinar mitigação climática com uma gestão mais eficiente dos resíduos.

O biometano não terá o mesmo papel em todos os contextos. Ele tende a ser mais relevante onde há geração contínua de resíduos inevitáveis, alta demanda energética e poucas alternativas de descarbonização. Em outras situações, seu papel será complementar ou de transição.

A recuperação do gás de aterros, por exemplo, é necessária para reduzir as emissões de um passivo já existente, mas não pode servir de justificativa para perpetuar um modelo baseado no descarte. É mais importante evitar que os resíduos orgânicos cheguem ao aterro.

Nas cidades, a política pública deve começar pela prevenção do desperdício, pela separação dos resíduos na origem e pela recuperação dos recicláveis. Para a fração orgânica, compostagem e biodigestão podem atuar de forma complementar, conforme a infraestrutura disponível e as características locais. O biometano urbano fortalece a economia circular quando integra essa lógica. Se sua viabilidade depender da manutenção de grandes volumes de resíduos enviados aos aterros, passa a competir com estratégias mais vantajosas, como a redução da geração de resíduos, a reciclagem de nutrientes e soluções descentralizadas de tratamento. O resultado pode ser o travamento do avanço de sistemas mais circulares e com maiores cobenefícios, como geração de emprego, recuperação de solos e menor demanda de transporte.

No campo, os critérios também precisam ser claros. A prioridade deve recair sobre dejetos animais, efluentes e resíduos inevitáveis da agroindústria. Culturas energéticas dedicadas não podem competir com a produção de alimentos, pressionar o uso da terra ou incentivar a conversão de vegetação nativa.

São Paulo exemplifica tanto a oportunidade quanto a necessidade de planejamento. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) estima que 181 plantas podem entrar em operação no curto prazo para atender parcela relevante do consumo estadual de gás natural ou diesel. O estado reúne condições para liderar uma nova fronteira energética baseada em aproveitamento sustentável de resíduos.

Mas esse potencial só se concretizará com planejamento capaz de definir, em cada território, onde instalar as plantas, quais resíduos utilizar e quem consumirá o combustível. Assim, evita-se reproduzir problemas relacionados ao uso da terra e à destinação de resíduos.

Os instrumentos regulatórios e os incentivos econômicos precisam evoluir para considerar o desempenho climático dos projetos. A redução de emissões deve ser comprovada ao longo de toda a cadeia, da origem da matéria-prima ao destino do digestato; sem esse critério, corre-se o risco de remunerar apenas o volume produzido, sem garantir uma redução efetiva das emissões.

Esse debate é especialmente relevante para o Sul Global, onde a crescente discussão sobre energia a partir de resíduos tem levado cidades a projetos de recuperação energética e incineração, soluções que podem comprometer o avanço da coleta seletiva, da reciclagem e de estratégias mais alinhadas à economia circular.

O biometano tem o potencial de ser a rota de aproveitamento energético complementar a um modelo circular.

O valor do biometano não está apenas na substituição do gás fóssil. Quando bem planejado, ele pode combinar saneamento, gestão de resíduos, mitigação de metano, produção de biofertilizantes, segurança energética, segurança alimentar, geração de renda e desenvolvimento local. Mas isso exige modelos compatíveis com realidades marcadas por limitações institucionais, financeiras e de infraestrutura.

Em última instância, o debate sobre o biometano é um debate sobre o modelo de desenvolvimento que queremos construir. O desafio é garantir que a descarbonização não reproduza, sob a etiqueta de “CO2 neutro”, as mesmas lógicas lineares e exploratórias que estão na origem da crise ambiental.

Alessandro Sanches Pereira é diretor-executivo do Instituto 17 e membro do Conselho de Engenheiros para a Transição Energética do Secretário-Geral das Nações Unidas.

Victor Hugo Argentino é coordenador de Resíduos Sólidos do Instituto Pólis e membro da Aliança Resíduo Zero Brasil.

Translate »