Quando a água deixa de seguir os ciclos que organizavam a vida humana
Editorial
Durante muito tempo, povos indígenas, quilombolas, populações rurais e sociedades urbanas organizaram suas vidas a partir da observação dos ciclos da natureza. O tempo de plantar. A época da colheita. Antes de qualquer boletim meteorológico, havia o céu, os ventos e os sinais da terra. Esse conhecimento não eliminava as incertezas do clima, mas oferecia referências para tomar decisões. E funcionava.
Na Índia, essa relação entre natureza e organização da vida tem um nome mais preciso: a monção de verão. Durante séculos, ela chegava em junho e recuava a partir de setembro. Mais do que chuva, organizava a agricultura, o comércio e a vida de um país inteiro. Cerca de metade das áreas agrícolas indianas ainda depende diretamente de suas águas. A revista The Economist observa que essa lógica está mudando. Não porque a monção tenha desaparecido, mas porque seus ciclos passaram a alternar extremos: momentos em que a água chega de uma só vez, em volume que os solos e as cidades não conseguem absorver, e longos períodos de estiagem. A água continua chegando, mas já não chega quando e como se espera.
No outro extremo do planeta, a Inglaterra enfrenta um problema aparentemente oposto. Pela segunda vez consecutiva, metade do país entrou em seca severa. Em texto recente, o jornal britânico The Guardian sustenta que a crise hídrica também revela escolhas políticas: ao longo de anos, a privatização do setor permitiu a distribuição de bilhões em lucros enquanto redes, reservatórios e sistemas de tratamento envelheciam sem os investimentos necessários. A seca não foi criada pela privatização, mas expôs os limites de um modelo que adiou investimentos essenciais. Quando um recurso indispensável passa a depender de decisões orientadas pelo curto prazo, a adaptação às mudanças climáticas tende a chegar tarde demais.
À primeira vista, Índia e Inglaterra parecem viver crises opostas. Uma tem água demais; a outra, de menos. Mas ambas contam a mesma história: perderam a previsibilidade.
Essa discussão também precisa ganhar centralidade no debate brasileiro. O novo marco legal do saneamento colocou no centro da agenda a expansão da cobertura e a atração de investimentos privados. É uma discussão importante. Mas a crise climática exige acrescentar outra pergunta: esses investimentos estão sendo planejados para um país cujo regime de chuvas será diferente daquele que orientou a construção de nossas cidades? Universalizar o acesso é necessário. Adaptar essa infraestrutura a um clima menos previsível é o desafio que se impõe agora.
Durante muito tempo, eventos extremos foram percebidos como tragédias localizadas ou problemas do futuro. Hoje, já interferem na vida cotidiana de milhões de pessoas. Interrompem o abastecimento de água, fecham estradas, pressionam o preço dos alimentos, afetam a geração de energia, agravam riscos à saúde pública e produzem impactos econômicos em cadeia. A crise climática deixou de ser uma preocupação exclusivamente ambiental para se tornar uma experiência concreta da vida contemporânea.
O Brasil é um país de abundância hídrica. Concentramos cerca de 12% da água doce superficial do planeta e abrigamos algumas das maiores reservas de água doce do mundo. Porém, abundância nunca significou segurança. O Rio Grande do Sul alterna enchentes históricas e estiagens prolongadas. Na Amazônia, onde o ciclo anual das águas sempre organizou a vida, a navegação, a construção das casas e o calendário das comunidades, secas inéditas mostram que até essa regularidade deixou de ser previsível. No Semiárido, agricultores acostumados a ler o céu já não reconhecem seus sinais.
Graciliano Ramos, em Vidas Secas, mostrou que a seca nunca foi apenas um fenômeno natural: ela revela desigualdades e limita escolhas. Quase 90 anos depois, o desafio parece outro. Não é apenas conviver com a seca ou com as enchentes, mas com um clima que deixou de respeitar seus próprios ritmos.
A crise climática está rompendo o acordo que, durante gerações, sustentou nossa relação com a água. Construímos cidades, sistemas de abastecimento, plantações e economias supondo que os ciclos do passado continuariam a orientar o futuro. Esse pressuposto já não se sustenta.
Em alguns lugares, a água desaparece. Em outros, chega de uma vez, destrói e vai embora. O problema não é apenas a escassez ou o excesso. É a perda da previsibilidade que permitia às sociedades se preparar, planejar e prosperar.
Banquete e jejum. E, entre um extremo e outro, a difícil tarefa de aprender a viver num mundo em que a água continua presente, mas já não segue os ciclos que conhecíamos.