julho 2026

Rio Grande do Sul mostra como reduzir metano sem perder produtividade no cultivo de arroz 

Painel na Semana do Clima de Porto Alegre reuniu pesquisa, agricultura familiar e dados científicos para mostrar que é possível produzir mais arroz emitindo menos metanogás que responde por um terço do aquecimento global 

Mediadora e painelistas em mesa promovida pela Uma Gota no Oceano e Global Methane Hub durante a Semana de Ação Climática de Porto Alegre. Da esquerda para a direita: Maria Helena Martinho (Uma Gota no Oceano), Mara Grohs (IRGA), Edivane Portela (MST) e Gabriel Quintana (Imaflora).

Mediadora e painelistas em mesa promovida pela Uma Gota no Oceano e Global Methane Hub durante a Semana de Ação Climática de Porto Alegre. Da esquerda para a direita: Maria Helena Martinho (Uma Gota no Oceano), Mara Grohs (IRGA), Edivane Portela (MST) e Gabriel Quintana (Imaflora).

“Da década de 80 pra cá, a gente tinha 84 quilos de metano por tonelada de arroz produzida. Em 2024, já reduzimos para 37 quilos.” A frase do coordenador do Imaflora, Gabriel Quintana, resume em um único dado o que levou o Rio Grande do Sul, responsável por 70% da produção nacional de arroz, a debater, nesta terça-feira (21), como reduzir emissões de metano sem abrir mão da liderança no cultivo do grão. 

Porto Alegre, 22 de julho de 2026. O dado abriu o painel “Menos Metano, Mais Futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz”, realizado durante a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, promovido pela ONG Uma Gota no Oceano em parceria com o Global Methane Hub. Mediado pela jornalista Maria Helena Martinho, o encontro reuniu pesquisadoras, um engenheiro agrônomo ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e um especialista em dados climáticos para mostrar que a mitigação do metano, gás responsável por cerca de um terço do aquecimento global, já é realidade no campo gaúcho, não apenas uma meta para o futuro. Diferentemente do CO₂, que pode levar séculos para se dissipar da atmosfera, o metano se decompõe em média em 12 anos, o que faz da sua redução um verdadeiro “freio de emergência climática”. 

 

Segurança alimentar sob pressão do clima extremo 

O painel recuperou os aprendizados deixados pelas enchentes de 2024, que atingiram sobretudo pequenos produtores em áreas de várzea no centro do estado. A pesquisadora do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), Mara Grohs, que participou de um levantamento em 312 propriedades atingidas, lembrou que o maior prejuízo não foi a falta de arroz no mercado, mas a perda da qualidade do solo. 

“Cerca de 45% dos produtores de arroz estão em áreas de vulnerabilidade climática. E através do trabalho que tivemos in loco com esses produtores, levantando os danos, identificamos uma perda de qualidade, principalmente quando se fala em matéria orgânica. O que é matéria orgânica? É a riqueza do solo, a parte microbiológica. O rio levou isso, e demora muitos anos para se recompor”, detalhou Mara Grohs. 

“Mas a maior lição que fica é a resiliência das pessoas: produtores vizinhos se juntaram, doaram maquinário e fecharam crateras maiores do que esta sala, ajudando uns aos outros”, relatou Mara Grohs. 

A pesquisadora do Instituto Rio Grandense do Arroz Mara Grohs, durante o painel “Menos metano, mais futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz” na Semana de Ação Climática de Porto Alegre

 

O engenheiro agrônomo Edivane Portela, que coordena o programa estadual de produção de arroz de base ecológica em parceria com o MST, descreveu uma realidade semelhante em assentamentos na região metropolitana de Porto Alegre, onde uma cozinha solidária chegou a fornecer mais de 50 mil refeições durante a enchente, com mantimentos levados de helicóptero. Para ele, o maior aprendizado não foi técnico, mas coletivo. 

“Não adianta a gente ter uma atuação só no dia a dia se não tivermos uma atuação a nível de sociedade, num sentido mais amplo. Se a gente não conseguir isso, não vai conseguir sobreviver a esse processo”, afirmou Edivane Portela. 

Para ele, um dos maiores desafios é que o planejamento agrícola ainda se apoia em dados de um passado que não reflete mais a realidade do clima. 

“As informações que a gente usa para definir uma atividade estão baseadas num comportamento climático histórico. E o que a gente tem visto é que os fenômenos têm acontecido de um modo diferente daquilo que a gente tem o hábito de interpretar”, declarou.

O Engenheiro agrônomo Edivane Portela, que coordena projetos em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em fala durante o painel “Menos metano, mais futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz” na Semana de Ação Climática de Porto Alegre

 

Cultivo de arroz: menos área, mais produção, menos metano 

Um dos dados mais expressivos apresentados por Mara Grohs mostra que o Rio Grande do Sul reduziu quase pela metade a área plantada de arroz nas últimas duas décadas, de 1,2 milhão para cerca de 860 mil hectares e, ainda assim, aumentou o volume total produzido. Isso só foi possível, segundo ela, graças ao melhoramento genético: hoje a mais semeada no estado, emite 50% menos metano do que outras sementes, simplesmente por ter um ciclo de cultivo mais curto e, consequentemente, menos tempo de área alagada. 

“O produtor adota essas práticas porque elas são mais produtivas e rentáveis. E é bom que elas também sejam mais sustentáveis do ponto de vista ambiental”, resumiu Mara Grohs, ao explicar que, quando o produtor drena a lavoura para a colheita, a emissão de metano cessa imediatamente, e o preparo antecipado do solo no inverno, adotado por 70% dos produtores gaúchos, já reduz em 25% as emissões da safra seguinte. 

O papel da ciência e das políticas públicas no combate ao metano 

Gabriel Quintana, coordenador da Iniciativa de Ciência do Clima do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), apresentou dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) para contextualizar o peso do arroz irrigado nas emissões nacionais de metano: menos de 2% do total emitido no Brasil, uma fração pequena diante do potencial de mitigação que o setor já demonstra. 

Segundo ele, se as boas práticas já consolidadas no Rio Grande do Sul, como o preparo antecipado do solo, fossem adotadas nas áreas do país que ainda usam o preparo convencional, o Brasil poderia deixar de emitir, até 2035, cerca de 300 mil toneladas de metano, sem perda de produtividade. 

“Não há ônus, não há perdas nessa atividade. É uma situação em que todos saem ganhando: o produtor, o consumidor, todos estão ganhando”, disse Gabriel Quintana, ao defender que essas práticas deixem de ser exceção e passem a ser a regra em todo o país. 

O painel também discutiu os limites do Plano ABC+ (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), política nacional que embasa a estratégia de mitigação do Plano Clima do governo federal. Quintana lembrou que o plano hoje prevê a ampliação, até 2035, de pelo menos 500 hectares de arroz de base ecológica com certificação, uma meta que, segundo ele, o próprio setor já mostra ser possível superar. 

O Coordenador de Ciência do Imaflora Gabriel Quintana, em fala durante o painel "Menos metano, mais futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz" na Semana de Ação Climática de Porto Alegre

O Coordenador de Ciência do Imaflora Gabriel Quintana, em fala durante o painel “Menos metano, mais futuro: segurança alimentar e inovação no cultivo de arroz” na Semana de Ação Climática de Porto Alegre

 

MST: maior produtor de arroz orgânico da América Latina 

Um dos destaques do painel foi a experiência do assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, dentro de uma área de proteção ambiental do Banhado Grande. Com 1.600 hectares cultivados anualmente, a área é considerada a maior extensão contínua de produção de arroz orgânico do continente. As famílias, organizadas em cooperativas, recebem pela produção certificada um valor cerca de 30% acima do preço de mercado do arroz convencional. 

“O MST reúne agricultores que estão à margem da sociedade, que muitas vezes têm dificuldade até de leitura e escrita, e traz para esse ser humano a ideia de que ele precisa buscar o seu espaço, ter a sua dignidade. Isso tem relação direta com a mudança de cultura de produção”, explicou Edivane Portela. 

Uma agenda que já é presente 

Ao final do painel, os três especialistas foram unânimes ao afirmar que já é possível produzir alimentos com sustentabilidade, reduzir emissões e promover a segurança alimentar, sem que isso seja uma escolha entre produtividade e meio ambiente. 

“Não é só possível, é o que estamos fazendo. Hoje o Brasil tem superávit na produção de arroz, graças justamente a essa ciência que estamos mostrando aqui”, concluiu Mara Grohs. 

O painel integrou a programação da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, que ocorre entre 20 e 26 de julho, e reúne sociedade civil, governos, empresas, universidades e organismos internacionais para discutir soluções para a crise climática no Sul do país. 

Confira nosso painel na íntegra, com vídeo disponível no nosso canal no Youtube

Sobre a Uma Gota no Oceano 

Organização da sociedade civil que atua há mais de 15 anos na promoção de causas socioambientais, aproximando ciência e sociedade por meio da comunicação. 

Crédito das fotos: Divulgação Um Gota No Oceano  

 

Translate »