Os rios são artérias do planeta

Os rios são artérias do planeta

fevereiro 2026

Os rios são as artérias do planeta. Sem rios saudáveis, não há futuro sustentável.

É por isso que os debates atuais sobre infraestrutura na Amazônia importam muito além do Brasil.

Por Paula Fernandes – diretora da Gota

Desde 2016, acompanho de perto a luta do povo Munduruku em defesa do seu modo de vida e de seus territórios. Desde 2018, a Uma Gota no Oceano atua diretamente com os Munduruku na campanha “Em nome de quê?”, ancorada em uma mensagem simples e profunda: os rios são as artérias do planeta. Eles precisam correr livres e saudáveis para garantir nosso modo de vida no futuro. Naquele momento, essa mensagem já era urgente. Hoje, ela é incontornável.

Essa visão está materializada no “mapa da vida” que os Munduruku construíram sobre o Tapajós: um mapeamento feito a partir de seus saberes, no qual o rio é território vivo, não linha de navegação. Ali estão locais sagrados, áreas de pesca, rotas, histórias e memórias que sustentam a vida física, cultural e espiritual de um povo. O mapa revela o que muitos projetos de infraestrutura insistem em não ver: para esses povos o rio é vida, não ativo logístico.

Ao longo desses anos, vimos as comunidades resistindo à exploração ilegal de madeira e aos impactos devastadores do garimpo. Mas algo mudou de forma decisiva: entramos na era das mudanças climáticas. Eventos extremos deixaram de ser exceção e sistemas naturais operam no limite. Isso altera completamente o contexto de qualquer decisão pública ou privada.

Nesse cenário, preocupam propostas que seguem tratando rios amazônicos como infraestrutura a ser moldada às demandas da exportação. O debate em torno do Decreto nº 12.600 é emblemático: fala-se em eficiência e modernização, mas, na prática, abrem-se caminhos para intervenções que adaptam rios vivos às demandas da economia, em vez de adaptar a economia aos limites da vida.

Esse não é apenas um debate técnico ou jurídico. É um debate sobre qual economia faz sentido num planeta em aquecimento. A IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade) aponta o ponto cego: seguimos chamando de “crescimento” processos que destroem as bases da economia: florestas, solos e água. É a contradição de um sistema que depende da natureza, mas premia sua erosão em métricas como o PIB. Como lembra Paul Polman, se uma empresa destruísse seus próprios ativos e chamasse isso de crescimento, seria má prática. É o que fazemos quando degradamos florestas, solos e água e chamamos isso de PIB.

Na Amazônia, rios garantem água potável, alimento, mobilidade, identidade cultural e regulação climática. Comprimir suas “artérias” para transformá-las em corredores logísticos compromete todas essas funções. Consulta prévia e licenciamento são essenciais, mas a pergunta é mais profunda: por que ainda tomamos decisões sem considerar impactos de médio e longo prazo em plena crise climática?

Crescimento que fragiliza os sistemas que sustentam a vida não é desenvolvimento, é aceleração do colapso. Se a economia depende da natureza, a economia precisa mudar. Proteger rios e pessoas não é entrave; é a condição de qualquer futuro viável.

Já vivemos os impactos das mudanças climáticas. A janela para agir está se fechando e as decisões que tomarmos agora definirão o mundo em que viveremos.

Que nossas escolhas honrem essa responsabilidade.

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