A Dança dos Signos em Ano Eleitoral
O sentido nasce onde a palavra encontra quem a lê e é dessa relação afetiva que a política se faz.
Por Paula Fernandes – diretora da Gota
Quando a floresta vira “ativo”, o rio vira “recurso” e o animal vira “proteína”, a devastação já começou. Ainda que só no discurso. Antes da motosserra, vem a palavra. Antes da erosão da terra, a erosão do sentido.
Em ano eleitoral, quem controla a linguagem sai na frente. A disputa climática de 2026 não será apenas sobre metas, políticas públicas ou promessas de campanha. Será uma disputa simbólica: sobre como nomeamos o mundo; sobre quem define o que é progresso, quem vira obstáculo e o que pode ser sacrificado em nome do “desenvolvimento”.
Para quem comunica causas socioambientais, ignorar isso é um erro estratégico.
Foi exatamente por reconhecer a centralidade dessa disputa que a Gota decidiu investir tempo, reflexão e método em um assunto frequentemente tratado de forma superficial: como os sentidos são criados, disputados e distorcidos na comunicação. Para isso, convidamos Alexandre Shirmer Kieling, pesquisador e professor de comunicação, pós-doutor pela UnB e docente da Universidade Católica de Brasília, para conduzir com nosso time de jornalistas uma conversa intitulada “A Dança dos Sentidos – O que fazemos com os signos?”.
A escolha não foi casual. Em um ambiente saturado de fórmulas prontas, slogans vazios e respostas automáticas, quisemos alguém que ajudasse a pensar, não a simplificar. Alguém capaz de conectar linguagem, política, tecnologia e imaginário social com rigor e senso de urgência.
A conversa começou com uma pergunta incômoda:
Se o que dizemos não é o que o outro entende, quem está perdendo essa disputa?
A resposta é clara: estamos todos perdendo.
Vivemos em um ambiente digital que recompensa o choque, a simplificação e a reação imediata. Algoritmos não privilegiam nuance. Plataformas não foram feitas para sustentar pensamento complexo. Em ano eleitoral, esse cenário se agrava: bolhas se fecham, posições se radicalizam e qualquer tentativa de mediação passa a ser tratada como suspeita
Mas comunicar não é gritar mais alto, é organizar sentidos.
E organizar sentidos, hoje, exige ir contra a lógica da aceleração permanente. Exige desacelerar, contextualizar e criar pontes onde o ambiente digital só oferece trincheiras.
Ao longo da aula, ficou evidente que essa disputa acontece no imaginário coletivo. É ali que se decide se povos tradicionais serão reconhecidos como guardiões do futuro ou reduzidos a estereótipos convenientes. É ali que a Amazônia pode ser entendida como território vivo ou como fronteira de exploração. É ali que o planeta pode aparecer como um sistema do qual fazemos parte ou como um estoque a ser exaurido.
Nada disso é neutro.
Nada disso é ingênuo.
Quando trocamos “vida” por “produto”, “natureza” por “recurso” e “território” por “ativo”, não estamos apenas mudando palavras. Estamos estreitando o campo do possível. Estamos treinando a sociedade para aceitar o inaceitável.
A linguagem prepara o terreno da política.
Por isso, quem comunica causas ambientais precisa assumir sua responsabilidade: cada palavra é uma escolha ética. Cada narrativa fortalece ou enfraquece determinados mundos.
No ambiente digital, essa responsabilidade cresce. O sentido não está apenas no que se diz, mas no modo como é lido – filtrado por experiências, emoções e algoritmos. Por isso, a mesma frase pode gerar empatia ou conflito, dependendo de onde e como circula.
Mediar hoje é um ato de resistência. Resistir ao ruído, à automatização do pensamento, à captura emocional permanente. A inteligência artificial pode acelerar processos, mas não substitui discernimento, escuta e responsabilidade humana.
Também não substitui os saberes que seguem vivos fora da lógica das plataformas – os saberes ancestrais, os tempos longos, os vínculos profundos com a terra. Modos de imaginar o mundo que não viralizam, mas sustentam a vida.
Atravessar 2026 vai exigir mais do que boas campanhas, mas método, intenção e posicionamento. Será preciso disposição de olhar para cada projeto e se perguntar que imaginário ele ativa? Quem deixa de fora? Em que ponto o sentido corre o risco de ser sequestrado?
Precisaremos aprender a dançar com os signos. Não para controlá-los, mas para não sermos engolidos por eles. E, quem sabe, reconstruir os vínculos que ainda nos mantêm vivos.
Em ano eleitoral, isso não é detalhe técnico. É responsabilidade política.