nossa
História


Expedição Tapajós

A Uma Gota no Oceano, junto com o diretor Luiz Fernando Carvalho, o fotógrafo Antônio Garcia e o técnico de som Leandro Lima, embarcou em novembro para uma expedição na aldeia Sawré Muybu, território Munduruku, às margens do Rio Tapajós, no Pará. O objetivo era colher material para produção de um filme que irá ilustrar a segunda fase da campanha “Em nome de quê?”, que vai ao ar no próximo ano.

Foram 14 dias de viagem divididos entre deslocamentos (afinal não é tão simples chegar na Amazônia), o período de gravações na aldeia e reuniões em Alter do Chão, também no estado do Pará.

Nos próximos dias vocês vão ler pouco do que foi nosso diário de viagem. Nele vamos contar nosso dia a dia, nossas experiências, as dificuldades e as belezas de se estar em plena Floresta Amazônica.

Esperamos que curtam e descubram, como nós, um pouco mais desse Brasil!

Boa viagem.

 

1º dia: O primeiro dia de viagem foi basicamente de descolamentos. Saímos do Rio de Janeiro, fizemos uma parada em São Paulo e seguimos todos juntos para Belém. De lá, pegamos outro voo, em um turbo-hélice, rumo a Itaituba. Antes, fizemos uma parada em Altamira, cidade mais afetada pela construção da Hidrelétrica de Belo Monte, nossa causa mãe. O reservatório de Belo Monte alagou uma área de 516 km² e dez 10 mil famílias tiveram que deixar suas casas. Além disso, a cidade cresceu desordenadamente: com a chegada de trabalhadores para as obras e as oportunidades que ela deveria oferecer, sua população aumentou em 50%. O resultado foi o aumento da violência urbana sem a chegada do prometido progresso, entre outros graves problemas. A concessionária Eletronorte também não cumpriu ainda a condicionante da obra que a obrigava a universalizar o saneamento básico na região.

Sobrevoar a floresta amazônica é algo indescritível, mesmo com baixa visibilidade pela janela do avião. Do alto também pudemos ver áreas de floresta danificadas, por queimadas e desmatamento, e a mineradora Hydro Alunorte, em Barcarena, cidade vizinha a Belém, que foi responsável por despejar rejeitos de mineração in natura no Rio Pará, em fevereiro. A princípio, a empresa atribuiu o fato a um acidente, mas depois descobriu-se que o vazamento fora proposital. Em outubro deste ano a mineradora decidiu interromper suas atividades no local por tempo indeterminado. Ao chegarmos em Itaituba, depois de 12 horas de viagem, fomos resolver os últimos detalhes antes de seguirmos para o território Munduruku, um dos mais numerosos grupos étnicos do Brasil, com mais de 13 mil pessoas que vivem às margens dos 850 quilômetros do rio Tapajós e seus afluentes. Carro, combustível, rancho, equipamentos: tudo certo para seguirmos viagem no dia seguinte.

 

2º dia: Logo cedo seguimos viagem para a Terra Indígena Sawré Muybu, do povo Munduruku. Em 2015, cansados de esperar pela ação do governo, eles decidiram fazer a autodemarcação do seu território seguindo as coordenadas do estudo feito pela Funai e pelo Incra. Sawré Muybu é um exemplo de resistência que impede a construção da Usina de São Luiz, no Rio Tapajós, o último grande afluente da margem direita do Amazonas a correr livre. A hidrelétrica poderia arruinar o Tapajós, assim como Belo Monte fez ao Xingu.

Voltando à viagem, seguimos nosso caminho pela Transamazônica, uma obra faraônica da época do “Brasil Grande” idealizada pela ditadura e até hoje inacabada. Em duas caminhonetes lotadas de equipamentos e mantimentos percorremos a rodovia por pouco mais de uma hora até o porto onde pegaríamos as voadeiras para a aldeia. O trajeto foi praticamente todo em estrada de terra e em alguns trechos margeando o Rio Tapajós.

Depois de enchermos também dois barcos, começamos a subir o rio. Um trajeto de quase duas horas cortando a Floresta Amazônica. Depois de anos de planejamento para essa expedição, navegar pelo Rio Tapajós foi um momento único, com sensações indescritíveis.

Ao chegarmos na aldeia, mais um desafio: Sawré Muybu fica no alto de um morro. Com ajuda dos nossos anfitriões, começamos a subir os cerca de 30 metros numa trilha no meio da mata, com nossos mais de 150 kg de equipamentos. Os Munduruku foram muito receptivos e atenciosos, sempre nos ajudando em tudo que precisávamos para nos instalarmos para os próximos sete dias de trabalho e descobertas.

Neste primeiro dia na aldeia, montamos nossas redes, ajeitamos nossos equipamentos, os mantimentos, enfim, nos alojamos, e fomos conversar com os anfitriões. O cacique Juarez nos apresentou a aldeia, nos deixando muito à vontade e nos acolhendo muitíssimo bem. Aos poucos, nossa expedição foi tomando forma. Nós ficamos abrigados na escola da aldeia. Na sala de aula, que fica em uma casa, deixamos os equipamentos de filmagem e nossas malas. Porém dormimos em outra sala de aula, em uma espécie de tenda com telhado de palha e cerca de madeira. Montamos nossas redes com mosquiteiro – item indispensável quando se trata de Amazônia. Aaah, e sem esquecer dos nossos inseparáveis companheiros de viagem: aranhas, sapos, pererecas e muitos, muitos pernilongos.

Nesta primeira tarde de aldeia, também fomos apresentados a um lugar que frequentamos bastante enquanto estivemos no território Munduruku: o igarapé. Trata-se de uma nascente que vem do meio da floresta e forma um pequeno poço de água transparente, onde os indígenas lavam suas roupas, louças e tomam banho. A água corrente deixa o igarapé sempre limpo e propício para um mergulho e uma refrescada do calor amazônico. E um detalhe: a margem do igarapé é formada por argila branca. Ou seja, além de ser um momento de descontração, o igarapé servia para fazermos uma esfoliação na pele!

À noite, tivemos nossa primeira apresentação para aldeia. Exibimos algumas Gotas de Informação e também assistimos a vídeos produzidos pelo Coletivo Audiovisual Munduruku. Pudemos ver, in loco, os diversos problemas que eles enfrentam, como garimpo ilegal, extração de madeira e o risco da construção de hidrelétrica que pode inundar diversos territórios sagrados para eles.

Um dos objetivos da expedição foi também essa troca entre os membros do Coletivo e o diretor Luiz Fernando Carvalho. Uma oportunidade incrível para os indígenas poderem aprender com ele, que é um dos maiores diretores de cinema e televisão do Brasil. Essas trocas durante a expedição foram muito enriquecedoras para a equipe da Uma Gota no Oceano, e esperamos que tenha sido para os indígenas também.

 

3º dia:O dia começou com uma conversa entre nossa equipe e os caciques Jairo e Juarez, que contaram histórias do povo Munduruku, em especial os mitos sagrados. Os Munduruku têm uma cultura riquíssima e uma mitologia muito forte. A partir desse papo, começamos a desenhar os produtos que iriamos extrair da expedição. Foram horas de uma profunda troca de ideias sobre a cultura da etnia. Nela, também acertamos os detalhes das gravações com os caciques.

Uma aldeia indígena é uma grande comunidade onde todos convivem em espaços comuns. E o cacique é a pessoa que tem o papel de liderança nessa grande família, um representante de todos os moradores com um papel de moderador das decisões. Muito respeitado, ele é a figura responsável pelo bom funcionamento dessa comunidade. É o cacique nosso principal interlocutor durante a expedição.

A aldeia Sawré Muybu é cheia de crianças das mais diversas idades que nos acompanharam durante todo nosso período de viagem. Tivemos uma integração tão grande que elas se tornaram as protagonistas da nossa história. E um detalhe interessante: como estávamos abrigados na escola, as crianças não tinham aula. O cacique, no entanto, considerava essa interação conosco também uma maneira de aprendizado para as crianças, uma espécie de intercâmbio de conhecimentos e culturas para ambos os lados.

Na parte da tarde, os indígenas se reuniram para jogar futebol. Ficamos assistindo, mas não participamos do jogo (dessa vez!). Enquanto os jovens e adultos jogavam num campinho improvisado na aldeia, as crianças estavam conosco e também brincando com nossa equipe. Essa relação com os pequenos na aldeia foi se intensificando a cada dia. Foi uma grande fonte de troca de saberes, já que eles também tinham muito a nos ensinar.

4º e 5º dia:Depois de já ambientados e com uma grande interação com as crianças, começamos a gravar imagens para o filme. Montamos um set de filmagem no campinho e passamos a manhã nesta gravação. Na parte da tarde, seguimos com as filmagens no igarapé, sempre acompanhados das crianças. 
No dia seguinte, enquanto parte da equipe saiu com alguns indígenas para caçar, acompanhando um buré – como os meninos são chamados na língua Munduruku – que estava sendo iniciado como caçador, a outra ficou na aldeia com os pequenos continuando com as filmagens. 
Na parte da tarde, acompanhamos uma família na produção da farinha de mandioca. Pai, mãe, avó e filhos se dividiam nas tarefas de ralar a mandioca, esculpir a pá que foi usada para torrar a farinha e preparar o tacho onde ela seria feita. Mais uma troca de aprendizado que os mais velhos passam para os mais novos para manter viva a cultura indígena. Depois voltamos a igarapé para novas gravações com as crianças e suas brincadeiras na água, as cantigas e a interação delas com a floresta.

6º dia:Os povos indígenas dependem da terra para sobreviver, plantando alimentos e criando animais para seu sustento. Um dos principais alimentos cultivados tradicionalmente pelos indígenas é a mandioca. A raiz é a matéria-prima para a produção da farinha, tão presente nas refeições dos povos tradicionais.

Procurando manter as tradições vivas nas crianças, acompanhamos os mais velhos ensinando a elas como se deve cultivar a terra e plantar a mandioca. Os indígenas cuidam de suas florestas como ninguém, fazendo manejo sustentável, inclusive do fogo, para deixar a terra sempre fértil para a roça.

Depois de gravarmos esta troca de sabedorias, fomos acompanhar outro momento muito tradicional para o povo Munduruku: a colheita de batata doce para fazer o kaxiri, uma bebida típica de dias de festas e comemorações da etnia, que consiste em uma mistura da batata – cozida e espremida – açúcar e farinha de mandioca.

Fechamos a tarde com chave de ouro. Acompanhamos as crianças se pintando de urucum. Foi uma farra! Elas pegavam o fruto, abriam e coloriam umas as outras.

À noite, estivemos com o pessoal do Coletivo Audiovisual. Eles mostraram vídeos produzidos em 2017, nos quais denunciavam ataques feitos por garimpeiros e madeireiros em seu território. Foi uma trocamuito interessante, especialmente porque o diretor Luiz Fernando aproveitou o encontro para dar dicas técnicas aos integrantes do coletivo sobre como melhorar suas gravações.

7º e 8º dia:Começamos o dia com chuva, o que dificultou um pouco as gravações externas. Aproveitamos então a presença do cacique Jairo, um ótimo contador de lendas e mitos do povo Munduruku, para gravarmos algumas dessas histórias e também conhecer um pouco mais da cultura tão rica dos nossos anfitriões.

Depois de ouvir muitos causos do cacique, seguimos para acompanhar a produção do kaxiri, a bebida a base de batata e farinha de mandioca que tinha começado a ser preparada no dia anterior e que seria consumida naquela noite. 

Com a trégua na chuva, conseguimos nos reunir à noite em volta de uma fogueira para que os caciques Jairo e Juarez pudessem compartilhar com os mais novos as sabedorias dos Munduruku.

Nos povos indígenas, as histórias, as tradições e os ensinamentos são contados dos mais velhos para os mais novos nestes encontros de rodas de conversa e trocas de experiência. Enquanto eles iam falando, os demais tomavam o kaxiri. E nós também experimentamos, claro. O sabor é bem diferente das bebidas que nós, não indígenas, estamos acostumados. Mas é bem gostoso!

Logo depois, uma roda se formou em torno da fogueira. Cantos e danças tomaram conta da noite pra lá de divertida.

Este, inclusive, foi o cenário que escolhemos para gravar um depoimento com a liderança indígena Alessandra Munduruku. O vídeo, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, foi a contribuição da Uma Gota no Oceano para a Conferência do Clima da ONU, a COP 24, em Katowice, na Polônia. Nele, Alessandra pede o apoio da comunidade internacional na defesa dos direitos humanos dos povos tradicionais, uma vez que eles passam por um momento crítico. Isso porque o novo presidente, que assumirá o governo brasileiro em janeiro de 2019, já se mostrou contrário à preservação de direitos indígenas garantidos na constituição. (O vídeo será divulgado em breve em todas as nossas redes sociais!)
Na manhã do dia seguinte, as crianças acompanhadas da professora Aldira, fizeram desenhos que representavam o dia a dia na aldeia naquela semana. É claro que aproveitamos para registrar estes momentos na aldeia Sawré Muybu para ilustrar o filme da segunda fase da campanha “Em nome de que?”, que lançaremos no ano que vem (aguenta coração!).

Despedida: Nosso último dia na aldeia ficou reservado para arrumarmos nossas coisas e nos despedirmos da comunidade que tão bem nos recebeu. Foi uma semana inteira de muitas trocas, muito aprendizado e muito crescimento. Conseguimos colher um material excelente que será transformado em um filme para apoiar a causa indígena, em especial os Munduruku.

Voltamos para Itaituba, nossa cidade base, e no dia seguinte seguimos nossa viagem para Alter do Chão. Durante mais de 7h seguimos descendo o Rio Tapajós até sua foz, onde ele encontra os rios Arapiuns e Amazonas, na região que é considerada o Caribe brasileiro.

Os quatro dias que passamos em Alter do Chão serviram para analisarmos todo o material gravado, estruturarmos a campanha, fazermos um cronograma do que virá pela frente e também editarmos o vídeo que gravamos com Alessandra Munduruku para a COP 24.

Foi em Alter também que nos encontramos com nossos amigos e parceiros Caetano e Eugênio Scanavinno, do projeto Saúde e Alegria. Os irmãos atuam juntos há mais de 30 anos, cuidando da saúde de povos tradicionais da Amazônia, muitos deles em situação de risco ou vulnerabilidade. Eles utilizam a arte, o lúdico e a comunicação como instrumentos de educação e mobilização. Com eles, encerramos nossa expedição do jeito mais paraense que podia: comendo um pirarucu com jambu e tucupi e depois seguimos para uma roda de carimbó.

Foram duas semanas de muito aprendizado e transformações. Estar numa aldeia indígena, no meio da Amazônia, é uma experiência única. Os Munduruku, habitantes daquela região há milhares de anos, conhecem como ninguém o Rio Tapajós e a floresta. Donos de uma cultura riquíssima, muito nos ensinaram neste período. Saímos de lá em êxtase e ávidos por contribuir com os Munduruku e seus esforços em manter o Rio Tapajós livre de hidrelétricas e garimpeiros.



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