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Hora de reajustar o termostato

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Vamos começar amenizando o clima: o levantamento anual da ONG internacional Global Carbon Project, divulgado na 23ª Conferência do Clima da ONU (COP 23), em Bonn, na Alemanha, mostra que o desenvolvimento sustentável é possível: ao contrário do Brasil, que realizou a façanha de poluir mais e encolher o seu PIB, 22 países (entre eles Reino Unido, França e Suécia) vêm conseguindo aliar crescimento econômico e redução de emissões de CO2. A má notícia é que, embora esse grupo esteja fazendo o seu dever de casa, ele é responsável por apenas 20% das emissões globais. E o mais grave: estável há três anos, o nível de CO₂ liberado na atmosfera está subindo. A estimativa é de que, no fim do ano, seja contabilizado um aumento de 2% em relação a 2016. Ou seja: ou começamos a reajustar o termostato ou as metas do Acordo de Paris, para que a temperatura média global não suba mais do que 2°C até o fim do século, vão pelos ares.

A principal responsabilidade por esse triste feito é atribuída à recuperação da economia mundial e, em particular, ao reaquecimento econômico da China – dona, sozinha, de 28% das emissões e que ampliou seu lançamento de CO₂ em 3,5% em relação a 2016. Mas, claro, os chineses não estão sozinhos na festa do carbono. Na Índia, a alta foi de 2%, cifra que acompanha seu crescimento econômico. Segundo o estudo, dos 41 bilhões de toneladas das emissões globais de gás carbônico, 31 bilhões vêm da indústria e do uso de combustíveis fósseis. Em sétimo lugar entre os maiores poluidores do mundo, o Brasil responde por 3,4%.

No relatório do Global Carbon Project, o país aparece com emissões em queda – atribuída pelos técnicos não a qualquer política ou ação para a redução do carbono, mas, sim, à grave crise econômica que atravessamos. O estudo, no entanto, leva em consideração apenas as emissões do setor energético, não incluindo na conta as provocadas pelo desmatamento, nossa principal plataforma de lançamento de CO₂. Incluindo essas e outras cargas, em 2016 as emissões brasileiras subiram 9%, como consequência do aumento de 27% na taxa de desmatamento entre agosto de 2015 e julho de 2016, conforme concluiu o último relatório do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg). Com isso, o efeito terapêutico da crise – que tirou o país da tomada e nos fez efetivamente emitir 7,3% menos de CO₂ com energia – foi por água abaixo.

Uma série de decisões políticas justifica o fenômeno: as tentativas continuadas de redução de proteção de florestas e de Terras Indígenas; e os desestímulos a políticas de baixo carbono, tanto para atividades no campo (como o crédito à agricultura de baixa emissão, que em 2017 atingiu seu patamar mais baixo) quanto a utilização das energias solar e eólica. “Ninguém pode acreditar no que o governo brasileiro diz aqui (na COP 23), porque é o contrário do que se faz no Brasil. Lá, as emissões avançam, quando aqui se fala que é para reduzir”, disse Sonia Bone Guajajara, da coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

O fosso entre o discurso e a fala fica ainda maior com a MP 795/2017, que tem o potencial de conceder R$ 1 trilhão em subsídios para empresas petrolíferas ao longo das próximas duas décadas. Nossa vergonha só não é maior porque a própria Alemanha, país sede da COP 23, também não tem feito direito a sua lição de casa e não conseguirá cumprir suas metas climáticas. Papel mais feio ainda estão fazendo os EUA que, com a entrada da Síria no Acordo de Paris, hoje são o único país fora do tratado.

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