nosso
Olhar


Negligência

Onde eu nasci passa um rio 
Que passa no igual sem fim 
Igual, sem fim, minha terra 
Passava dentro de mim
(Caetano Veloso)

Alguma coisa grave acontece no coração de São Paulo. Sua principal artéria, o Rio Tietê, e vários cursos d’água da Região Metropolitana transbordaram na noite de domingo, 10 de março. Casas em encostas também foram atingidas. A consequência da forte chuva foi a pior possível. Mais de dez pessoas morreram. No início do ano, situação semelhante matou seis pessoas na cidade do Rio de Janeiro. Toda essa tristeza expõe um imenso vazio no debate na sociedade civil e nos poderes públicos: as questões urbana e ambiental estão sendo discutidas separadamente. Num país com um processo de urbanização dos mais intensos do mundo a partir dos anos 1960, tal segregação é uma irresponsabilidade.

Temas como especulação imobiliária, déficit habitacional e áreas de risco têm a ver, sim, com o meio ambiente. As mudanças climáticas, por sinal, têm um poder de destruição devastador sobre os grandes centros urbanos. E a preservação de florestas é um fator fundamental para contê-las. É por isso que os moradores da Região Sudeste têm de se preocupar, sim, com o futuro da Amazônia. Os fenômenos urbano e ambiental se relacionam o tempo todo.  

Mesmo localmente, isso pode ser observado. A preservação dos rios e cursos d’água da Grande São Paulo seria essencial para evitar desastres como o causado pelo temporal do último fim de semana, como enfatiza o geógrafo Gustavo Veronesi, da Fundação SOS Mata Atlântica. “Se as matas ciliares fossem cuidadas, serviriam para drenar a água e os rios não transbordariam sempre que chovesse um pouco mais forte”. Veronesi explica que é necessário cuidar também das nascentes de rios auxiliares, impedindo que esgoto e lixo sejam jogados lá. Outra fonte de sujeira é a poluição do ar, que chega às águas do rio levada pelas chuvas. Como se vê, tudo se relaciona.

A poluição dos rios da região não promove só a degradação da metrópole, como também gera doenças para a população. Parece óbvio, então, que preservá-los deveria ser prioridade para São Paulo. E por que nesse entra e sai de governo nada é feito? Veronesi afirma que a mentalidade dominante é a de que os rios são o problema e não a solução. Logo, o poder público prefere represá-los em valões ou simplesmente aterrá-los, deixando a cidade ainda mais impermeável. “As pessoas precisam entender que não foi a água que invadiu a rua, a rua é que invadiu a água”, diz o geógrafo.

O Rio de Janeiro não tem alternativa a não ser vestir a carapuça lançada por Veronesi.  Segundo o Instituto Pereira Passos, só na capital são 22 rios subterrâneos, dos quais pouca gente ouviu falar. Nomes de cursos d’água como Papa Couve, Algodão e Jacó são meros desconhecidos do carioca. O Rio Berquó, que passa sob um cemitério da Zona Sul, chega imundo na Enseada de Botafogo, protagonizando uma cena melancólica para o município. Assim, sem que ninguém veja, casas de áreas pobres, prédios e residências da cidade dita formal, com suas redes clandestinas, levam esgoto às águas de um lugar chamado Rio e cuja população é chamada de fluminense justamente por querer dizer originário do rio.

Parte do Rio Carioca, que apelida o povo da capital, também está submersa em quatro bairros da Zona Sul, chegando à praia do Flamengo num estado lastimável. Mais: na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, 34 cursos d’água deságuam na Baía de Guanabara, quase todos repletos de lixo e esgoto. Tudo isso potencializa ainda mais os riscos durante as enchentes. É o que ocorre nas favelas do Rio. A despeito de as casas ficarem em meio a cursos d’água, quase nada é feito para melhorar a drenagem. O esgoto e o lixo das comunidades convergem para os valões. O que traria mais segurança e saúde às famílias seria algo chamado de básico: saneamento.

Mas a falta de ação dos governos em relação a riscos como esses tem falado mais alto. Nem sempre foi assim. No Rio de Janeiro, a Floresta da Tijuca, sob a supervisão do major Gomes Archer a partir de 1861, teve seus mananciais reflorestados. Motivo: a crise do abastecimento de água na capital do império do país provocada por desmatamentos causados pelo crescimento urbano e pela expansão da cultura cafeeira.

As providências, porém, não podem ser ilusórias. Em Belo Horizonte, na área central, o principal rio da cidade, que a corta de leste a oeste, também foi aterrado. Trata-se do Ribeirão Arrudas. Para a urbanista mineira Cláudia Pires, da Comissão Nacional de Política Urbana do Instituto dos Arquitetos do Brasil, foi feito algo naquele trecho da capital que é falsamente ambiental. “Tornaram o rio submerso em vez de despoluí-lo. Em cima dele, instalaram placas de cimento e um canteiro de flores”…

Se os rios são as artérias do planeta, deveriam então correr livres e saudáveis. O que observamos neste início de ano é como se eles estivessem sofrendo de embolia, quando uma ou mais veias ficam bloqueadas por um coágulo sanguíneo.

Ter empatia por nossos rios é fundamental nestes tempos em que a questão hídrica é um desafio global e testemunhamos nossas águas serem tão maltratadas. Os povos tradicionais conservam uma relação sagrada com seus rios. Se lembrarmos que somos 70% água, faz todo o sentido. Preservar os rios é assegurar nossa sobrevivência em vários aspectos. 

Em nome de que estamos mutilando e envenenando aqueles que garantem nosso futuro?

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