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Não é hora de lavar as mãos, mas de pôr mãos à obra

Greta Thunberg #FridaysForFuture FridaysForFuture

A catástrofe ambiental que devastou Moçambique no mês passado é só um prenúncio do que está por vir. Não é hora de lavar as mãos, mas de pô-las à obra. Como fez a jovem sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que deu largada a um movimento mundial de estudantes pelo clima. A semente do #FridaysForFuture (Sextas-feiras pelo Futuro) foi lançada em agosto do ano passado. Greta decidiu protestar sozinha em frente ao parlamento da Suécia contra a falta de iniciativa de políticos e empresários no combate às mudanças climáticas. Mas logo uma multidão a seguiu: só em 15 de março, 1,6 milhão de estudantes de 125 países foram às ruas protestar.

É preciso se engajar e contribuir com movimentos que cuidam do nosso planeta. Há muito em jogo e todos os setores da sociedade devem ter voz ativa. O atual presidente, porém, extinguiu de uma vez 30 conselhos e comissões que tinham como função justamente intermediar o diálogo entre o Estado e a sociedade. Isso torna ainda mais importante a realização de eventos como o Acampamento Terra Livre (ATL), a maior assembleia indígena do país, que está começando hoje. São espaços fundamentais para o exercício da democracia, do debate e da cidadania. O encontro não recebe um centavo de dinheiro público, é integralmente custeado por organizações indígenas e indigenistas, e por doações. A luta dos povos das florestas também é nossa. Siga outro exemplo de Greta Thunberg: ela doou os 25 mil euros que ganhou do Prix Liberté, prêmio francês concedido a personalidades que se dedicam à luta por liberdade e pelos direitos humanos, a ONGs ligadas ao combate aos efeitos das mudanças climáticas. Ajude você também a vaquinha virtual do ATL.

Os povos indígenas não promovem o bem-estar do planeta somente em regiões afastadas dos grandes centros. Os Guarani da Aldeia Itakupe, ou Sol Nascente, no Pico do Jaraguá, na Zona Norte de São Paulo, há 5 anos vêm realizando um trabalho importante: a revitalização das nascentes da região. De um ano pra cá, este trabalho vem sendo ampliado, com mutirões feitos pelos indígenas para limpar e recuperar lagos. O financiamento também veio de uma campanha de arrecadação pela internet. “A ideia é continuarmos a fazer lagos até que todas as famílias das seis aldeias, cerca de 800 pessoas, tirem seu sustento deles”, diz o cacique Matheus Wera. A Terra Indígena Jaraguá fica encravada na maior metrópole do Brasil. Em 2015, uma portaria reconheceu a posse da terra pelos Guarani. Mas para ser oficializado, o documento precisa da homologação do presidente da República.

O Parque Estadual do Jaraguá é um oásis para o paulistano. É de interesse de toda a população da cidade que ele seja bem cuidado. O desmonte que vem sendo promovido no ministério do Meio Ambiente, cujo titular, Ricardo Salles, foi indicado pelo agronegócio, é um entrave. Além de esvaziar o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), dificultando a participação de entidades civis em suas decisões, o ministro demitiu de uma vez 21 dos 27 superintendentes regionais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), enfraquecendo ainda mais o principal órgão de fiscalização da pasta. Na semana passada, Salles também aumentou a participação de militares em postos-chave da sua administração. Nada contra a princípio, não fossem pessoas pouco familiarizadas com o tema. 

As mudanças climáticas também viraram semente para a criação de movimentos sociais em defesa das abelhas. Aliada ao uso indiscriminado de agrotóxicos, essas transformações são responsáveis pela drástica redução da população do inseto polinizador. Ele têm um papel fundamental na produção de alimentos e, se extinto, pode afetar o abastecimento de comida mundial. Para evitar esse fim, o movimento Million Pollinator – Garden Chalenge reúne 45 associações de diversos países do mundo, formadas por milhões de meliponicultores, apicultores e proprietários de terras que cultivam jardins apenas para preservar os insetos – como o ator Morgan Freeman, que transformou sua fazenda num santuários para polinizadores. No Brasil, o governo tem liberado em média um agrotóxico novo por dia e o ministro do Meio Ambiente também acabou com a Secretaria de Mudanças do Clima e Florestas, o que torna ainda mais importante iniciativas como a do marinheiro gaúcho radicado em Paraty José Moure. Meliponicultor amador, ele cria oito espécies nativas da Mata Atlântica em seu quintal: jataí, uruçu-amarelo, guaraipo, manduri, mirim-guaçu, boca-de-sapo, arapuá e mandaçaia. O próprio Moure confecciona as casinhas de madeira (chamadas caixas racionais) dos insetos.

Ou a sociedade civil se inspira nos exemplos de Greta Thunberg, dos organizadores do ATL, do marinheiro José Moure e dos Guarani do Jaraguá ou será mera espectadora da devastação do planeta.

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