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Barrando o futuro

Barrando o futuro, damming the future

O governo brasileiro está caminhando contra o vento e tapando o sol com peneira. Represar um rio é barrar o futuro. Com as novas tecnologias de produção de eletricidade, não faz mais sentido construir grandes hidrelétricas: o número de usinas eólicas vem crescendo num ritmo superior a 20% ao ano; elas serão a segunda maior fonte de energia do país já em 2019. Nossa capacidade instalada deve aumentar de 13GW para 19GW até 2023; em breve, ela vai superar a de Itaipu, construída pela ditadura há 34 anos. Mas ainda aproveitamos bem pouco do nosso potencial: menos de 10%. Já a capacidade de geração de energia solar no mundo aumentou 54% em um ano, e mais do que triplicou em três. Será a fonte de energia mais barata em menos de uma década. Se realmente havia a ideia de construir uma ponte para o futuro, investir na construção de hidrelétricas deveria ser considerada, definitivamente, coisa do passado.

E, de fato, a crise econômica e a pressão social pareciam ter sepultado de vez o projeto de construir mais hidrelétricas na Amazônia. Bastou, porém, um parecer do Tribunal de Contas da União para o governo querer desenterrá-lo – e lançando mão de medidas autoritárias, coisas que também deveriam ter ficado no passado. O órgão estimou um prejuízo de R$ 23 bilhões em 30 anos, caso a Usina de São Luiz de Tapajós não seja construída. Só Belo Monte custou mais de R$ 30 bilhões, de 2011 para cá. As contas do TCU, que começaram a ser feitas em 2008, partem de princípios ultrapassados: compara os custos de hidrelétricas com termelétricas, certamente mais caras e poluentes. Sol e vento são limpos e de graça.

Ainda assim, o Executivo trabalha na proposta de um Projeto de Lei que prevê obras em Terras Indígenas (TIs) mesmo sem a autorização das comunidades. O texto dá um prazo de 90 dias para uma resposta; caso contrário o presidente “poderá encaminhar o pedido de autorização ao Congresso Nacional”. Construída num rio que seca oito meses por ano, Belo Monte é não só um desastre socioambiental, como econômico. Não há razão para repetir no Tapajós o erro cometido no Xingu; até porque é um erro de agora, não de um passado distante. Em nome de quê, então?

Não é de mais geração de empregos, certamente. O setor de energia renovável criou mais de 500 mil novos postos de trabalho em todo o mundo em 2017. Hoje, a solar já é a maior empregadora: são aproximadamente 3,4 milhões de trabalhadores, quase 9% do total. Até 2050, o setor de energia renovável pode criar até 28 milhões de empregos. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), já são mais de 46 mil consumidores que recebem eletricidade gerada por painéis fotovoltaicos, mini-eólicas e microcentrais hidrelétricas no Brasil. O total é de 401 MW, quase 150 MW instalados só em 2018. Calcula-se que esta potência vai passar dos 500 MW no fim do ano. Só de energia solar, já são 315 MW e quase 40 mil consumidores.

Mas o setor tem muito teto para se expandir: o Brasil tem pouco mais de 20 mil telhados solares; Bangladesh, um país bem mais pobre, mais de 2 milhões. Os equipamentos são financiados com microcrédito e a um custo acessível para a população. Telhados solares e pequenas usinas têm a vantagem de dispensar a construção de longas linhas de transmissão, que além de caras podem atravessar TIs. Como o Linhão de Tucuruí, que deveria unir Roraima ao Sistema Interligado Nacional de Energia, mas atravessa o território dos Wamiri-Atroari. Mesmo assim o ministro das Minas e Energias, Moreira Franco, deu autorização para o início das obras da Termelétrica do Porto do Açu III, em São João da Barra, no Rio de Janeiro. O monstrengo deve custar R$ 4,1 bilhões pode emitir cerca de 6,5 milhões de toneladas de CO₂ por ano. Enquanto isso, Petrobras e Furnas anunciam que vão investir em parques eólicos. Os bons ventos já geram hoje mais de 190 mil empregos diretos e indiretos. A energia eólica que produzimos atualmente é suficiente para atender 22 milhões de lares por mês, ou cerca de 67 milhões de habitantes.

Não custa lembrar também que reservatórios de grandes hidrelétricas construídas em florestas emitem metano, outro gás do efeito estufa, mais potente do que o CO₂. Além disso, o desmatamento é a segunda maior causa das mudanças climáticas, respondendo por aproximadamente 20% das emissões de gases. E a destruição da floresta no entorno de Belo Monte vem crescendo sem parar desde o início de sua construção. Em seis meses, 100 milhões de árvores foram derrubadas. Grandes hidrelétricas são muito vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas no regime de chuvas e na vazão dos grandes rios. Ou seja, elas acabam ajudando a criar condições para a sua aposentadoria.

Saiba mais:

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