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Em nome de que, São Francisco?

Em nome de quê, São Francisco?

Os Caeté o chamavam Opará, “rio-mar”. E assim como aquele povo indígena, extinto ainda no século XVI, o São Francisco pode se tornar apenas uma lembrança. A estiagem que castigou o sertão de 2011 a 2018 chegou a secar a sua nascente, na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Só que não apenas as mudanças climáticas e o desmatamento o ameaçam. Já em 1928 o poeta Jorge de Lima (1893-1953) alertava para outro perigo: “E primeiro desceram pelo rio Opara / os homens que foram ferir a terra à procura de ouro”. É longa a sua agonia. Mas a cobiça pode lhe desferir o golpe de misericórdia.

Segundo um estudo da Fundação SOS Mata Atlântica, nosso maior temor se concretizou: rejeitos de minérios que vazaram da barragem da Vale em Brumadinho chegaram ao leito do Velho Chico, levados pelo moribundo Paraopeba. Mais de 14 milhões de almas dependem diretamente do chamado “rio da integração nacional”. O São Francisco tem 2.830 km de extensão e corta cinco estados do Sudeste e do Nordeste antes de desaguar no Atlântico, entre Sergipe e Alagoas; sua bacia hidrográfica se estende por 641 mil km² – cerca de 8% do território brasileiro – e banha áreas de Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.

“Esse impacto silencioso é grave, pois é contínuo e diário. E, por não ter atingido o São Francisco numa tsunami, como ocorreu com o Rio Doce, é uma degradação silenciosa que não pode nos calar”, diz Malu Ribeiro, coordenadora de projetos da fundação. Portanto, não fique em silêncio: junte-se a nós na campanha “Em nome de que, São Francisco?”.

Além de Uma Gota no Oceano e SOS Mata Atlântica, participam dessa corrente o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), a Articulação Popular São Francisco Vivo e o Observatório do Código Florestal. O vídeo da campanha tem supervisão artística do diretor Luiz Fernando Carvalho, narração do ator Gabriel Leone e arranjo de Tim Rescala para a versão musical, de Padre Irala, da “Oração de São Francisco”.

A Fundação SOS Mata Atlântica analisou 123 km de rio e a água está imprópria para o uso da população entre os municípios mineiros de Felixlândia e Pompéu. O Velho Chico foi examinado em 12 pontos; destes, nove estavam acima dos limites legais de contaminação, definidos pela Resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Em alguns deles, o nível estava entre duas e seis vezes maior do que o permitido. “Os metais pesados presentes na água já silenciam o rio. Não ouvimos nas suas águas o coaxar de sapos, os rodamoinhos de peixes e nem as aves pescadoras. Esse silêncio expressa a forma mais violenta de poluição. Analisar a qualidade da água é dar voz ao rio para que crimes ambientais como esse não fiquem impunes e para que possamos nos unir para recuperar suas águas”, diz ainda Malu Ribeiro.

O São Francisco vem perdendo muito de seu vigor nas últimas décadas, a ponto de sua foz ser invadida pelo mar. Além da falta de chuva, sua água tem sido desviada clandestinamente para irrigação e contaminada pelo garimpo ilegal, pelo despejo de esgoto sem tratamento, e por obras irregulares e agrotóxicos. Para tentar reverter este quadro crítico foi lançado em 2016 um programa de revitalização chamado Plano Novo Chico. A previsão era de investir R$ 7 bilhões em saneamento básico, projetos de despoluição, empreendimentos sustentáveis, e gestão e educação ambiental até 2026. O crime ambiental da Vale vai nos obrigar a rever esses números. Não vai ser fácil: um recém-lançado estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela que há três anos o investimento em água tratada só vem caindo.

E, infelizmente, Brumadinho pode ser só a ponta do iceberg. Recentemente, três outras barragens da Vale, localizadas em Nova Lima e Ouro Preto, passaram para o nível máximo de alerta de rompimento. Antes disso, a barragem Superior Sul da Mina Gongo Soco, em Barão dos Cocais, já havia entrado no mesmo estágio de atenção. Famílias foram retiradas de suas casas e outras tiveram que passar por treinamento para o caso de emergência. No dia 1º de abril, a Agência Nacional de Mineração (ANM), interditou 56 barragens em oito estados – Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Goiás, Pará, Amapá e Paraná. Destas, 27 pertencem à Vale. Não é só o Velho Chico que está ameaçado.

Outro estudo lançado no dia 1º, pela Agência Nacional de Águas (ANA), aponta que consumo de água no país deve crescer 24% até 2030, chegando a 2,5 milhões de litros por segundo. Só a bacia do São Francisco abastece 521 municípios. Logo, não é só o rio que está em risco. Em nome de que estamos botando em risco a nossa própria sobrevivência?

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