nosso
Olhar


Guerra de canudos

Guerra de canudos

Não há lugar para nós e eles no planeta. Por isso foi declarada a guerra de canudos. E não há neutralidade possível nessa briga: mesmo nas montanhas mais remotas da Suíça foram encontradas 50 toneladas de micropartículas de plástico. Os resíduos chegaram lá pelo vento. Sabíamos há algum tempo que estávamos bebendo e comendo – indiretamente – plástico. Agora, descobrimos que também estamos respirando este outro subproduto do petróleo, como o diesel e a gasolina. E que ele não precisa de nós para chegar aos lugares mais remotos: além dos Alpes Suíços, foi encontrado plástico a 10 mil metros de profundidade, na Fossa das Marianas, e no chamado Ponto Nemo, a região do oceano mais distante de ilhas ou continentes. Nem o Ártico e a Antártida escapam de seus tentáculos.

Como o inimigo é bem mais numeroso – para se ter uma ideia, acreditava-se até outro dia que a ilha de plástico que boia no Pacífico era do tamanho do Maranhão e hoje se sabe que é três vezes maior, tem a área do Estado do Amazonas – foi preciso escolher uma frente de batalha. E do outro lado, estão os canudos de plástico. Cidades mundo afora começam a declarar guerra ao artefato. No Brasil, o Rio de Janeiro saiu na frente, mas São Paulo e Florianópolis já estão indo em seu socorro. Aliste-se você também.

Dos anos 1950 para cá, nós produzimos mais de 8 bilhões de toneladas de plástico. Só 9% deste total foram reciclados. O resto está por aí e vai ficar muito tempo: uma garrafa pet leva 450 anos para se decompor e uma fralda descartável, 600. O pior é que ele não desaparece por completo, mas se fragmenta em micropartículas que contaminam mares e rios – foram encontrados fragmentos mesmo em garrafas de água mineral.

Partículas de microplástico acabam virando comida de peixe e vão parar em nosso estômago indiretamente. Mas toda a fauna e flora marinha sai prejudicada: 90% das aves do mar e 100% das tartarugas já comeram plástico. Em março, uma autópsia revelou o motivo da morte de uma baleia-cachalote que foi encontrada encalhada no litoral espanhol: ela tinha se entalado com 29 quilos de plástico. No início deste mês, a vítima foi uma baleia-piloto, que comeu 8 quilos – ou 80 sacolas – na Tailândia. Se nada for feito, até 2050 vai ter mais plástico que peixe no mar.

Os estudos sobre os malefícios que a ingestão involuntária de microplástico traria à saúde humana ainda são inconclusivos. Mas segundo o capitão Charles Moore, oceanógrafo da Fundação de Pesquisas Marinhas Algalita e descobridor da grande ilha plástica do Pacífico – que, agora se sabe, tem cerca de 1,6 milhão de quilômetros quadrados –, ela pode estar associada às epidemias de obesidade e diabetes tipo 2. O Brasil faz bonito em se tratando de reciclagem de latas de alumínio; mas quando o produto é plástico, deixa muito a desejar. Reciclar e pesquisar novos materiais biodegradáveis é o caminho mais seguro e rentável. Segundo o Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb), o país poderia faturar pelo menos R$ 5,7 bilhões por ano só reciclando lixo plástico.

Mas a hora não é de pensar no que pode ser feito no futuro, pois o inimigo não dá trégua. É tempo de medidas drásticas. Desde agosto do ano passado, o Quênia proibiu a fabricação e o uso de sacolas plásticas – as penas podem chegar à prisão. Vancouver, no Canadá, já marcou data para banir definitivamente de seu território embalagens de isopor e canudos plásticos: 1º de junho de 2019. Na semana passada, a Câmara Municipal aprovou um Projeto de Lei para proibir o uso dos canudinhos em quiosques, bares e restaurantes. É hora da agir sem piedade.

Saiba mais:

Lixo nos oceanos faz mal à saúde

Brasil perde R$ 5,7 bilhões por ano ao não reciclar resíduos plásticos

ONU Meio Ambiente e parceiros miram a poluição nos rios para reduzir o lixo marinho

Câmara do Rio de Janeiro aprova proibição de canudos plásticos

Bioplástico feito de salada

São Paulo pretende banir canudo de plástico

Planeta está sufocado por 5 bilhões de toneladas de plástico

Microplástico: regata descobre partículas até no Ponto Nemo

ONU pede restrição de sacolas plásticas para evitar contaminação dos oceanos

Um desafio do século: o que fazer do plástico

Brasil perde R$ 5,7 bilhões por não reciclar todo lixo plástico produzido anualmente

Pesquisadores encontram 80 sacolas plásticas em estômago de baleia morta na Tailândia

Alternativas a itens plásticos descartáveis

Comissão Europeia propõe proibição de produtos plásticos descartáveis

Vancouver proíbe uso de canudo e embalagens de isopor

Nova York quer proibir uso de canudos plásticos

Para os bichos, o plástico transforma o oceano em um campo minado

Plástico – Nós o criamos. Dependemos dele. Mas ele nos ameaça.

Como os canudos plásticos viraram um grave problema ambiental

Mundo declara guerra ao canudo plástico, vilão do meio ambiente

Projeto de lei proíbe uso de canudinhos plásticos em estabelecimentos de Florianópolis

Alternativas a itens plásticos descartáveis

Canudinhos plásticos podem gerar intoxicação

Time de baseball da liga profissional dos EUA toma atitude e é o 1º a proibir canudos no seu estádio

Guerra contra o plástico

Ilha de plástico no Pacífico já tem quase três vezes o tamanho da França

ONU identifica plástico descartável a mais de 10km de profundidade no mar

Assim é a ‘sopa de plástico’ que asfixia o mundo

Microplástico contamina solo até de montanhas mais remotas da Suíça

Plástico polui oceanos do Ártico à Antártida

Ártico é ralo global de lixo plástico, dizem cientistas alemães

Poluição por microplásticos atinge até a Antártica, alerta estudo

Autópsia revela 29 quilos de lixo plástico em corpo de baleia encalhada na Espanha



Publicações

Indígenas lutam na Justiça pela Funai

Nós temos uma Constituição e, diferentemente de muita gente por aí, os povos indígenas sabem usá-la....

A bicharada invade o Rio

A bicharada está invadindo o Rio de Janeiro. Ou seria o contrário? Outro dia, uma arara-vermelha,...

Xingu no #DesafioDos10Anos

Entramos no #DesafioDos10Anos! A imagem abaixo se refere à região da Volta Grande do Xingu, no...

O poder das palavras

Em 1938, um então desconhecido ator e diretor de cinema fez uma dramatização na rádio que...

O sapo Romeu encontra sua Julieta

Romeu finalmente encontrou sua Julieta. Mas ela não é fácil. Há 10 anos o anfíbio mais...

Indígenas temem uma grande invasão

Miriam Leitão esteve, em 2013, com o fotógrafo Sebastião Salgado em território Awá Guajá, no Maranhão,...

O ABC do Cerrado dá lição de sustentabilidade

O abecedário da preservação e da produtividade. Gerenciado pelo Banco Mundial, o ABC do Cerrado tem...

O limpa-folha-do-nordeste silenciou

O Brasil chega a 2019 mais silencioso. Perdemos o cantar de dois conterrâneos no ano passado:...

Terras indígenas: onde a natureza resiste

Na primeira metade do século XVI, o conquistador espanhol Francisco de Orellana equiparou a valentia das...

Funai perde atribuições fundamentais

A notícia parece preocupante e é mesmo. O novo governo baixou uma Medida Provisória que destitui...